
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O historiador de Novo Hamburgo, Arthur Metz, de 32 anos, conquistou um feito sonhado por muitos brasileiros: estudar em uma das instituições de ensino mais prestigiadas do planeta. Metz foi aprovado recentemente para o doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Ele desenvolverá sua pesquisa junto ao Laudato Si’ Research Institute, centro de referência global na intersecção entre sustentabilidade, ecologia e religião.
A coluna conversou com o pesquisador.
O que foi a seleção?
Fui selecionado para o doutorado em Oxford, na Inglaterra. É um processo extremamente rigoroso, rígido e difícil.
Como foi a seleção?
A seleção parte muito de um projeto de pesquisa. Precisamos ter a formação acadêmica anterior como pré-requisito, mas parte muito de um projeto. A ideia é que o seu seu projeto esteja muito bem escrito e alinhado com as prioridades de o departamento tem. Eu já havia tentado uma vez no ano passado, (quando) não fui selecionado, e esse ano veio (novamente) a seleção.
E o projeto foi aprovado no Instituto de Pesquisa Laudato Si'. O que o Instituto trata?
O projeto foi primeiramente aceito no Departamento de Teologia e Ciência e Religião, dentro da Universidade de Oxford. E ele está alinhado com o Laudato Si’ Research Institute, que é um centro de pesquisas de ecologia integral. Laudato Si’ é uma encíclica a qual o papa Francisco escreveu e é uma carta aberta falando sobre as questões climáticas e dando a devida importância para os desafios climáticos que nós temos atualmente. O Laudato Si’ Research Institute parte desse princípio de que a religião, seja ela católica, protestante ou outras, precisa dar importância para as questões climáticas.
Do que trata especificamente a sua pesquisa?
A minha pesquisa parte das enchentes que aconteceram no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Enchentes que foram devastadoras e que tiveram um impacto gigantesco nas nossas vidas. Eu sou parte de uma igreja luterana em Novo Hamburgo e, durante as enchentes, percebemos que não só a nossa própria comunidade, mas diversas igrejas e pessoas de outras religiões se envolveram muito na ajuda, se doando de corpo e alma para a situação, seja cozinhando, recebendo pessoas nas suas casas, seja depois que as águas baixaram ajudando na limpeza, na reconstrução... Houve uma organização muito forte, e isso despertou em mim uma pergunta: o que move essas pessoas? Seja financeiramente, seja com a mão na massa... Fiz um breve estudo de caso na época e isso cresceu para um projeto maior, no qual eu entendo que a nossa visão de mundo e, particularmente, a nossa visão de futuro, de como o futuro há de se desenrolar, diz muito sobre como agimos no presente. Dentro da teologia e das religiões isso se chama escatologia. Entendemos muitas vezes escatologia como uma ideia de fim de mundo, Armagedom, mas é muito mais do que isso. Eu parto desse princípio, de que de um ponto de vista cristão, por exemplo, escatologia fala muito mais de uma renovação de todas as coisas do que da destruição de todas as coisas. Eu creio que essa visão inspira pessoas a fazerem parte dessa renovação, seja ajudando aqueles mais necessitados, ou seja, então, em questões ambientais, botando a mão na massa e cuidando dessas questões ambientais, cuidando do meio ambiente. Eu quero, com essa pesquisa, a partir de Oxford, voltar ao RS e fazer essa pesquisa de maneira mais profunda, ver o que que inspira as pessoas a se envolverem ou não com o meio ambiente. Se a pessoa tem uma visão escatológica de fim de mundo, as atitudes dela podem muito bem ser de que não vale a pena cuidar das coisas, não valeu a pena fazer um esforço para cuidar do meio ambiente.
Quanto tempo de doutorado?
Começa em outubro, presencial. E por isso que isso envolve custos grandes também. E ele tem a duração de três anos, até outubro de 2029.
Sobre os custos, você está buscando ajuda?
Eu me inscrevi para diversas bolsas de estudo, seja da própria universidade ou internacionais, só que são bolsas extremamente concorridas. Tem gente no mundo inteiro concorrendo, são limitadas. Só o programa custa R$ 800 mil, divididos em 3 anos. Mais o custo de vida eleva muito o valor. O Brasil tem algumas iniciativas de bolsa sim, via CNPq, via CAPES, que no momento não estão abertas. Algumas outras iniciativas eu fui atrás, só que quando se traz o assunto de religião, eu acho que acabamos perdendo algumas oportunidades. Eu busco, então, apoio seja de pessoas ou instituições que gostariam de apoiar, de alguma forma, esse trabalho dentro da área do meio ambiente aqui no RS. Celebramos tantas coisas importantes no nosso país, mas quando vem para o lado acadêmico, parece que as pessoas não dão muita importância. E conseguir uma oportunidade dessas, acho que é uma conquista interessante para o Brasil.
Qual o sentimento de ser selecionado em uma universidade de tanto prestígio?
Acho que é muito surpreendente por um lado, porque eu acho que muitas pessoas falam que o brasileiro, de certa forma, tem um complexo de vira-lata, de achar que não é possível, que é difícil demais, que é distante demais. Quando eu apliquei no ano passado e não fui selecionado, eu recebi um feedback me dando mais ou menos as ideias do que precisava melhorar, meio que deu o caminho, então eu resolvi tentar de novo esse ano e deu certo. É um sentimento também de pensar que vale a pena tentar. Precisamos deixar um pouco nosso complexo de viralatismo de lado e tentar as coisas. Saber que, sim, é muito difícil, mas tem muitas coisas difíceis na vida, que se não tentarmos, não vamos conseguir mesmo. Não custa nada tentar e, sem dúvidas, é um sentimento de surpresa, mas também de uma alegria muito grande.




