
Reagindo com a raiva que lhe é habitual, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a retirada de cerca de 5 mil militares americanos estacionados na Alemanha.
Esse movimento de retaliação era esperado desde segunda-feira (27), quando o chanceler alemão Friederich Merz disse que os iranianos estavam humilhando os EUA nas negociações para encerrar o conflito que já passa de dois meses no Oriente Médio.
Mas, obviamente, não é uma reação instantânea: é parte da agenda Trump reduzir a presença militar na Europa, diminuindo seu papel no guarda-chuva da Otan e cobrando que os próprios países do continente aumentem suas participações no orçamento total de defesa da Otan.
Retirar 5 mil militares do total de 35 mil que os EUA mantêm na Alemanha não é muito do ponto de vista numérico. A questão aqui é o que isso significa do ponto de vista simbólico, a mensagem que isso envia para aliados e inimigos da Otan e dos próprios americanos.
De inimigas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Alemanha se tornou uma espécie de hub militar dos EUA na Europa. Os americanos estacionaram milhares de soldados em território alemão para, em um primeiro momento, defender a Alemanha Ocidental, que virou linha de frente contra a URSS, durante a Guerra Fria, e, depois, contra a Rússia.
A redução do efetivo mexe com a arquitetura de segurança de toda a Europa. No país, os EUA mantém tropas na Ramstein Air Base e no quartel-general do Comando EUCOM (United States European Command), em Patch Barracks, Stuttgart, que servem como centros de comando para Europa e África, base logística para operações no Oriente Médio e infraestrutura de transporte coordenação de toda a Otan.
A Alemanha é o coração operacional da Otan. Por isso, a diminuição de efetivo põe em risco do artigo 5º, aquele que foi muito falado durante a invasão da Ucrânia pela Rússia: "um ataque contra um é um ataque contra todos". Não foi colocado em prática porque a Ucrânia não pertence à Otan, mas muito se comentava que, em caso de ação russa contra Polônia ou os países bálticos, esse artigo seria acionado.
Com Trump praticamente rasgando o artigo 5º da Carta da Otan, ele desequilibra a estrutura de segurança europeia: a Alemanha passa a ter de assumir maior gastos militares para sua própria defesa e do restante do continente, os países do Leste, como Polônia e Bálticos, que já estão vulneráveis e ficam ainda mais fragilizados diante da ameaça russa.
A presença americana na Alemanha sempre foi um sinal de dissuasão - aquela palavra que significa algo do tipo: "eu não ataco meu inimigo, porque ele é mais forte do que eu". Sem dissuasão, a Rússia pode continuar testando os limites de sua ambição em direção ao Oeste (a Ucrânia é vista como só a primeira fase de uma possível ação militar contra territórios que, durante a Guerra Fria, faziam parte da esfera soviética).
Perde a Europa. Ganha Vladimir Putin.






