
O Irã, a Ucrânia, as ameaças à Groenlândia: tudo isso é apenas a ponta do iceberg do mais grave tensionamento geopolítico do século 21 — a disputa entre Estados Unidos e China. Por isso, o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, previsto para ocorrer entre quarta (13) e sexta-feira (15), em Pequim, é tão decisivo para o futuro do planeta. E essa reunião pode ser analisada em dois níveis.
O primeiro é o mais imediato: o conflito envolvendo o Irã, que já ultrapassa dois meses sem solução e chega a um momento dramático depois de o presidente americano descartar uma proposta de paz duradoura. Tudo indica que Washington tentará pressionar Pequim a reduzir sua influência sobre Teerã.
Tão evidente quanto o fato de que pouco se move na ditadura dos aiatolás sem que a China saiba é a constatação de que qualquer pressão americana sobre Pequim tende a ser inócua. O Irã só flexibilizou sua postura — permitindo um cessar-fogo — após sinal verde chinês. E a China continua sendo peça-chave para manter abertos os canais de diálogo entre iranianos e americanos.
Mas essa é apenas a superfície. Como em todo iceberg, existe uma camada muito mais profunda, perigosa e decisiva: a disputa hegemônica entre Estados Unidos e China. Desde 2011, quando o governo Barack Obama promoveu o chamado “Pivot to Asia” e deslocou o eixo estratégico americano do Oriente Médio para o Indo-Pacífico, Pequim passou a ocupar o centro das preocupações de segurança nacional dos EUA, ao lado da Rússia. Trata-se de um dos raros consensos domésticos entre democratas e republicanos.
O termo varia conforme o ocupante da Casa Branca — “rival”, “adversário”, “inimigo” —, mas a lógica é sempre a mesma: confronto estratégico. O que muda é a abordagem. Democratas tendem a privilegiar mecanismos de diálogo e contenção diplomática; republicanos, demonstrações mais explícitas de hard power.
Para Washington, a China é a principal potência revisionista da atualidade, desafiando a ordem liberal internacional construída pelos americanos após a Segunda Guerra Mundial. É dessa percepção que decorrem as preocupações com a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), com os contenciosos no Mar do Sul da China, com a defesa da liberdade de navegação em uma região que Pequim trata, na prática, como um “lago chinês”, além das tensões envolvendo aliados americanos no entorno estratégico chinês, como Filipinas e Vietnã.
E, acima de tudo, Taiwan.
A ilha talvez seja hoje um dos pontos mais perigosos do planeta. Para Pequim, trata-se de uma província rebelde cuja reunificação é inevitável. Nos círculos estratégicos internacionais, há cada vez menos dúvidas sobre a possibilidade de uma ação militar chinesa; a incerteza está mais no “quando” do que no “se”. Taiwan ocupa, para a China, papel semelhante ao da Ucrânia para a Rússia: um território considerado vital para a integridade nacional e para a projeção de poder regional. A diferença é que, no caso taiwanês, existe um compromisso americano com a segurança da ilha — o que amplia exponencialmente o risco de uma escalada global.
Percebem por que a região pode arrastar o mundo para uma guerra de grandes proporções?
Por tudo isso, é positivo que Trump e Xi conversem — e continuem conversando.
O problema é que, à frente das duas maiores potências do planeta, estão líderes profundamente disfuncionais. De um lado, Trump, que rompe alianças históricas e corrói, por dentro, instituições que sustentaram por décadas a ordem liberal internacional. De outro, Xi Jinping, que concentra poder em uma ditadura cada vez mais centralizada, utiliza instrumentos econômicos para ampliar dependência externa, intimida vizinhos e projeta influência sobre conflitos estrangeiros.
Ainda assim, é melhor que Trump e Xi continuem conversando.





