
Quando Robert Francis Prevost, já convertido em Leão XIV, assomou ao balcão da Basílica de São Pedro, um ano atrás, poucos conseguiram identificar quem era o novo papa. O americano não era um dos favoritos, reforçando a máxima vaticana de que "quem entra na Capela Sistina papa costuma sair cardeal". Prevost entrou cardeal e saiu papa.
Mas, de tudo o que vi e vivi naquela tarde de surpresas e emoções no coração do catolicismo, recordo de duas leituras imediatas da escolha do colégio cardinalício: primeiro, um Pontífice nascido nos Estados Unidos seria um recado a Donald Trump, então recém-eleito para um novo mandato? Segundo, o que Prevost desejava sinalizar ao mundo ao escolher o nome Leão, o que exatamente extrairia da referência a Leão XIII?
A Igreja Católica, como se sabe, é cercada de símbolos e recados cifrados. Por certo, os cardeais não escolheram o americano por causa das "trumpulências" de seu conterrâneo político. No entanto, nesses 365 dias, poucos líderes tiveram tamanha coragem de desafiar o presidente dos EUA em seu afã de fazer a guerra. O ataque ao Irã visivelmente irritou o Papa, que tomou a decisão incomum de mencionar nominalmente um presidente, Trump, e denunciar qualquer justificativa religiosa para o conflito. Sua resposta tem sido clara: o caminho para a resolução de temas espinhosos como o enriquecimento de urânio pelo país dos aiatolás não pode ser com armas, mas pelo diálogo. A franqueza de Leão XIV desencadeou um confronto sem precedentes entre o Vaticano e Washington.
O segundo ponto também é importante: Prevost, ao homenagear o antecessor Leão XIII, incorpora o espírito de um tempo de fraturas políticas, econômicas e sociais, que lembram a transição do século 19 para o 20. O italiano Leão XIII foi um papa inovador para sua época, buscando conciliar a tradição da Igreja com os desafios do mundo moderno, especialmente nas áreas social, filosófica e diplomática tal qual as fissuras atuais — e futuras.
Por certo, o papa americano cumpre um pontificado de continuidade. Leão XIV não tem o carisma de Francisco. É mais formal, discreto e sorri quase timidamente. É processual, mas, do ponto de vista da doutrina, ele adota a mesma linha inclusiva do Pontífice argentino, designando papéis mais importantes para as mulheres e pregando uma Igreja mais pastoral.
Os dias de sua viagem pela África evidenciaram que Prevost levou para a Santa Sé o espírito missionário, de quem viveu duas décadas pelo mundo. Leão XIV possui passaporte peruano e fala espanhol e italiano fluentemente. Como chefe da ordem religiosa agostiniana, viajou muito antes de chefiar um dos departamentos mais importantes do Vaticano, o Dicastério para os Bispos.
Leão viveu o primeiro ano sentindo os humores e idiossincrasias da Cúria, mas não será prisioneiro do trono de São Pedro. Muito mais jovem do que seus antecessores imediatos (70 anos), tem tudo para construir um dos maiores pontificados da história contemporânea. Está à altura dos hercúleos desafios do momento. É um papa global.

