
Há duas coisas que se deve saber antes de um encontro entre o presidente do Brasil e o dos Estados Unidos.
A primeira: muito do que é dito diante das câmeras no Salão Oval já foi previamente negociado entre assessores. Ali, diante do público, é sobretudo encenação protocolar. O essencial já está acertado.
A segunda: esses encontros funcionam como termômetro da relação bilateral. Por isso, até quinta-feira (7), data da reunião entre Lula e Donald Trump em Washington, o diagnóstico dominante será o de um relacionamento frio, no máximo morno. Dificilmente alguém dirá que está quente.
Independentemente do que for dito na Casa Branca, é preciso ter em mente que a relação entre os dois países é de Estado — construída ao longo de mais de dois séculos. As fricções entre governos são circunstanciais e, em geral, variam conforme a orientação ideológica dos presidentes de plantão, aqui ou lá. Há ciclos de aproximação e distanciamento.
Nos últimos meses, o relacionamento passou por um teste de estresse. O tarifaço imposto pelos Estados Unidos há cerca de um ano tensionou a relação, ainda que decisões posteriores — inclusive judiciais — e a atuação diplomática brasileira tenham ajudado a reduzir parte do atrito.
Mas aí veio a Venezuela, a guerra no Irã, e a agenda americana mudou.
O Brasil não é prioridade para a Casa Branca trumpiana, mas há respeito institucional: o presidente americano vê o país e Lula, a despeito de alguma desconfiança (a preferência pela família Bolsonaro e, nos últimos dias aprofundada pelo caso Ramagem e a medida de reciprocidade), com certo interesse.
O principal desafio do brasileiro no Salão Oval é ser ouvido: Trump, em seu palco particular, costuma falar demais, por vezes constranger o visitante (como fez com Volodymyr Zelensky), dar respostas vagas a jornalistas ou tergiversar, especialmente quando não gosta do assunto (caso das críticas de Lula à guerra ou a posição brasileira sobre a ação americana na Venezuela).
É sabido o interesse do governo Trump em acesso a minerais críticos. Há um interesse mútuo em fortalecer a cooperação no combate ao crime organizado (e o desejo do governo americano de considerar PCC e CV como organizações terroristas). São temas sensíveis, que esbarram diretamente na soberania nacional. Washington já formalizou posições e aguarda resposta de Brasília.
Lula vai a Washington em um momento delicado internamente, após as derrotas da semana passada: a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo e a derrubada de seu veto sobre a dosimetria. Ambos no Congresso. Para presidentes americanos, a velha máxima é que crises domésticas frequentemente se projetam para fora, em geral em guerras fabricadas. Para o brasileiro, os os ares gelados de Washington, neste início de primavera no Hemisfério Norte, podem amenizar o desconforto interno. Lula costuma se beneficiar de demonstrações de protagonismo internacional.






