
Lá se vão mais de dois meses de guerra entre Estados Unidos e Irã. Nesta sexta-feira (1º), o presidente americano, Donald Trump, disse que não está satisfeito com a proposta de um acordo apresentada pelos aiatolás para encerrar o conflito, despejando, novamente, um balde de água fria em quem acreditava que o fim da tensão estaria próximo.
Não é apenas sobre a paz no Oriente Médio, estamos falando de um conflito que mantém o mundo em suspense, afeta a distribuição de gás e petróleo e impacta o tráfego aéreo internacional - sem falar, é claro, do mais importante: as vítimas da guerra e a iminência de uma contenda em larga escala, com potencial de conduzir o mundo a uma Terceira Guerra Mundial.
Mas o que, afinal, está travando um acordo entre EUA e Irã?
Há uma resposta curta e outra longa.
Vamos, primeiro, a uma mais sintética: a reabertura do Estreito de Ormuz. Como se sabe, o Irã, que controla a passagem pela qual trafega cerca de 20% do fluxo de petróleo mundial, fechou a rota, com ameaças de minas e bombardeios. Os Estados Unidos, por sua vez, fizeram o bloqueio do bloqueio: por meio de uma manobra de guerra naval, impede navios iranianos de saírem dos portos, sob ameaça de ataque, e de cruzarem Ormuz.
Então, de imediato, o Irã quer o fim do bloqueio americano e liberação dos portos. Já os EUA não desejam suspender essa manobra porque não há garantias de que os aiatolás permitirão a passagem livre de embarcações de diferentes bandeiras. Aliás, um ponto delicado é que o Irã deseja cobrar, a partir de agora, uma espécie de pedágio para navios que cruzarem o local.
Dá para perceber que o Irã está tratando as negociações em curso como algo de longo prazo, enquanto os Estados Unidos querem uma solução rápida. Até porque Trump irá se encontrar com o presidente chinês, Xi Jinping, entre os dias 14 e 15 de maio - o ideal, na cabeça do americano, seria uma solução até lá.
A resposta longa à pergunta do título é: a questão nuclear. O entrave a qualquer negociação para um cessar-fogo definitivo ou uma paz duradoura é o tema do enriquecimento de urânio pelos aiatolás. A verdade é que os EUA travaram duas guerras recentes com o Irã - a de 12 dias, no ano passado, e essa atual -, mas não há garantias de que o programa nuclear iraniano tenha sido obliterado.
Depois que "melaram" negociações para uma segunda rodada, em Islamabad, os iranianos enviaram seu chanceler até Moscou para um encontro com Vladimir Putin. Muito provavelmente a entrega de uma proposta de acordo, feita nesta semana, incluía a ideia de o Irã enviar para Moscou seu excedente de urânio, a fim de que os russos administrassem o produto. Isso é importante porque, supostamente, seria uma garantia de que o Irã não estaria enriquecendo urânio a mais de 90% - percentual suficiente para a construção de uma bomba atômica.
A ideia não é muito diferente da de 2010, quando o Brasil se aventurou em propor uma solução para a crise, no chamado Acordo de Teerã, a mais ousada cartada do Itamaraty, que foi atropelada pelo governo Barack Obama. Infelizmente, diga-se de passagem, porque a ideia era muito boa: em vez da Rússia, o urânio excedente seria armazenado na Turquia.
Mas voltemos ao tema atual: os Estados Unidos não querem de jeito algum (e Israel muito menos) um Irã nuclear. Então, o tema da suspensão definitiva do processo de enriquecimento é fundamental. É o que trava o acordo.
Uma saída seria uma moratória de 10 anos para enriquecimento da substância, uma espécie de meio termo. Mas há muitas desconfianças no ar entre os dois lados. Por isso, não avança. A guerra continua. E o mundo segue em suspenso.




