
Desta vez, ninguém poderá dizer que não foi avisado.
O El Niño deve se formar antes do previsto, o que também pode antecipar o aumento das chuvas no Rio Grande do Sul. A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), agência climática dos Estados Unidos, elevou para até 82% a probabilidade de consolidação do fenômeno. E mais: cresce o risco de que ele seja classificado como “muito forte”.
No Estado, sabemos exatamente o que isso significa. Chuvas intensas, rios fora do leito, cidades vulneráveis e o fantasma ainda vivo dos traumáticos 2023 e 2024. Por isso, qualquer discurso do poder público tratando obras contra enchentes como “emergenciais” soa, dois a três anos depois da tragédia, quase como confissão de fracasso.
Mas há outro efeito do El Niño ainda subestimado: o risco de uma nova crise alimentar na América Latina.
A FAO (agência da ONU para alimentação e agricultura) vem publicando alertas relacionando o possível retorno do fenômeno a riscos crescentes para a segurança alimentar global. A coleção de monitoramento climático e alimentar da FAO/GIEWS reforça que novos episódios de El Niño podem afetar diretamente agricultura e abastecimento, especialmente em países já fragilizados por eventos extremos anteriores.
Outro documento, o relatório Crop Prospects and Food Situation, alerta para impactos sobre a produção agrícola e sobre os preços globais dos alimentos ao longo de 2026 e 2027. Em maio, FAO, IFAD e WFP divulgaram comunicado conjunto advertindo que América Latina e Caribe enfrentam aumento do risco de insegurança alimentar em razão das previsões climáticas.
E o problema não está isolado. O economista-chefe da FAO, Máximo Torero, explicou que a combinação entre conflito no Oriente Médio, petróleo caro e um novo El Niño pode empurrar o mundo para outra crise alimentar.
O alerta é ainda mais grave porque o planeta mal se recuperou dos impactos do último grande El Niño, entre 2023 e 2024.
O fenômeno produz efeitos opostos no continente. Enquanto aumenta o risco de enchentes no sul do Brasil, intensifica estiagens no chamado Corredor Seco da América Central, provocando perdas agrícolas severas. Hoje, as Américas já respondem por cerca de 22% das perdas globais relacionadas a desastres agrícolas, acumulando prejuízos estimados em US$ 713 bilhões.
Os mais vulneráveis são pequenos agricultores, comunidades rurais e populações que dependem diretamente da agricultura familiar para sobreviver. São setores com menor capacidade de adaptação aos choques climáticos e que, frequentemente, chegam às crises sem seguro, sem assistência técnica e sem reserva financeira.




