Donald Trump deixa Pequim sem grandes anúncios concretos, mas com algo muito valioso neste turbulento momento da geopolítica: sinais de estabilidade. O presidente americano encerrou sua visita à China após uma segunda reunião bilateral com Xi Jinping marcada por poucos resultados palpáveis, ao menos até o momento. Mas há sinais de uma tentativa de reorganizar uma relação que vinha perigosamente tensionada.
O resumo da ópera: não houve grandes avanços. Estamos falando de dois líderes que têm pouco apreço pela imprensa e pela transparência. No caso chinês, trata-se de um regime autoritário. No americano, de um presidente que frequentemente trata jornalistas como adversários políticos. Assim, as informações saem aos pedaços.
Minha leitura é de um otimismo cauteloso: nada indica que Estados Unidos e China tenham resolvido os grandes dilemas dessa relação que muitos já classificam como uma nova Guerra Fria. Mas conseguiram estabilizar o ambiente.
Foi quase uma "DR geopolítica" entre Trump e Xi — uma longa conversa de relacionamento entre as duas maiores potências econômicas e militares do planeta.
E os temas centrais continuam sendo os três “Ts”: tarifas, tecnologia e Taiwan.
Trump, aparentemente, saiu satisfeito: foi recebido com banda marcial, honras de chefe de Estado e desfile na Praça Tiananmen. Ou seja, todo o ritual de reverência que o americano aprecia.
Na frente das câmeras, houve cordialidade absoluta. Considerando o nível de deterioração das relações nos últimos anos, o simples fato de ambos aparecerem sorridentes e concordarem sobre a importância da estabilidade bilateral representa alguma mudança em um mundo desesperadamente carente de calma geopolítica.
A portas fechadas, os temas espinhosos apareceram. Taiwan continua sendo o ponto mais sensível. Xi teria deixado claro que a ilha é o tema com maior potencial de levar China e EUA a uma guerra.
Para Pequim, Taiwan é uma questão existencial. Foi para lá que fugiram, em 1949, as forças derrotadas pela revolução comunista de Mao Tsé-Tung. Hoje, Taiwan funciona como um país independente, embora a China considere a área parte inseparável de seu território.
Os Estados Unidos seguem a política da “Uma Só China”, sem reconhecer formalmente Taiwan como país soberano, mas mantêm um compromisso ambíguo de proteção militar em caso de ataque. É a chamada ambiguidade estratégica. Em termos simbólicos, Taiwan está para a China como a Ucrânia está para a Rússia: um território considerado vital para identidade nacional e segurança.
No campo econômico, os detalhes seguem nebulosos. Trump havia prometido amplos acordos comerciais antes da viagem - tanto que levou, no Air Force One um séquito de empresários bilionários, a começar por Elon Musk -, mas pouco foi formalizado. O presidente americano afirmou à Fox News que Xi concordou em encomendar 200 aviões da Boeing. Já o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, disse esperar que Pequim compre “dezenas de bilhões de dólares” em produtos agrícolas americanos ao longo dos próximos três anos, incluindo soja.
Para o Brasil, um ponto de atenção: um eventual acordo agrícola robusto entre chineses e americanos pode reduzir espaço brasileiro em exportações de soja, milho e carne bovina. Nos últimos anos, o agro brasileiro cresceu justamente ocupando lacunas abertas pela guerra comercial entre Washington e Pequim.
A guerra envolvendo o Irã pairou sobre toda a visita. Antes da reunião, havia expectativa de que Trump pressionasse Xi a usar sua influência sobre Teerã. A China é hoje a principal compradora de petróleo iraniano e uma das parceiras diplomáticas mais relevantes do regime dos aiatolás. Trump saiu afirmando que Xi prometeu não fornecer equipamentos militares ao Irã e se ofereceu para ajudar a resolver o conflito.
O comunicado da Casa Branca trouxe outro ponto relevante: ambos concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto e que o Irã jamais poderá obter uma arma nuclear. Xi também teria deixado clara a oposição chinesa à militarização da região e à ideia de cobrança de pedágio na passagem estratégica por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial.
No fim das contas, Trump deixa Pequim sem troféus. Xi também não teve muitos ganhos a exibor. Mas, em um cenário internacional fragmentado, em que a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, as ameaças a Taiwan, as crises tarifárias, a descrença em instituições multilaterais e o reordenamento geopolítico, pressionam simultaneamente o sistema global, o maior resultado foi evitar uma nova escalada entre Washington e Pequim. E isso não é pouco.




