
Como jornalista, não é incomum o lado profissional se misturar com o pessoal - embora se aprenda na faculdade (e alguns cânones antiquados acadêmicos ainda abominem essa suposta "contaminação") que deva haver uma separação total entre o jornalista e o fato.
Com alguns meses de vida real, um repórter percebe que essa é uma daquelas falácias da profissão. Em quase 30 anos de Jornalismo, quantas vezes o pessoal e o profissional se mimetizaram no dia a dia da reportagem: do outro lado da rua ou do mundo.
Nesta terça-feira (5), foi, literalmente, do outro lado da rua. Acordei por volta das 5h20min com o som de estalos vindos do lado de fora da janela do meu apartamento. Identifiquei que não eram tão perto, do lado de cá da calçada, mas também não tão distantes, a mais de uma quadra. Fiquei intrigado com o som, que, pela experiência, identifiquei que não era de tiros tampouco de fogos de artifício.
Normalmente, ao menor dos ruídos estranhos, desperto. Sento na cama e abro uma fresta da persiana. Evitei fazê-lo por cinco minutos, imaginando que seria apenas de pessoas chegando ao trabalho, talvez a algazarra de algum grupo de jovens que fazia de uma lata de refrigerante uma bola improvisada. Mas o ruído continuava, como que alguém pisando em folhas secas.
Eu abri a persiana. A 20 metros da janela do meu apartamento, o prédio que abrigava a padaria Petrópolis, um chaveiro e a lanchonete Mundo do Xis, na esquina das ruas Barão do Amazonas e Felizardo, estava sendo consumido por um incêndio. As chamas alcançavam a altura do edifício residencial vizinho, ou seja uns cinco andares.
— GENTE INCÊNDIO.
— NA PADARIA
Eram as mensagens no grupo do condomínio.
Eis aí o instante em que as dimensões pessoal e o profissional se misturam.
Ao identificar que não havia risco imediato para o meu prédio, tratei de ligar para o 193 do Corpo de Bombeiros. Segundos que parecem uma eternidade. Atenderam.
— Felizardo com Barão do Amazonas, né?
O atendente já sabia:
— Estamos enviando dois caminhões.
Passei, então, a gravar as chamas e enviar as imagens para GZH. Os vidros da janela estavam muito quentes. Um dos meus temores era de que estourassem. E se atingissem os edifícios residenciais vizinhos? E a árvore imensa da calçada?
Quando fiz o primeiro boletim para a Rádio Gaúcha, às 6h5min, o som das sirenes do primeiro caminhão dos bombeiros ecoou pelo Jardim Botânico. O teto da padaria despencou. Outro dos meus receios era de que o fogo se aproximasse da cozinha do estabelecimento, onde, como frequentador, sei que ficam abrigados os botijões de gás da padaria.
Assim que desliguei a chamada da Gaúcha, continuei gravando. O vidro da minha janela esquentava mais. Fechei um pouco a persiana.
Foquei em um dos bombeiros que estava serrando a porta de ferro para acessar o prédio. Foi quando registrei uma explosão no interior da padaria.
Os bombeiros apagaram o incêndio rapidamente. Mas, do alto, eu via que um novo foco que se formava perto da cozinha. Resolvi descer para avisá-los.
- Está controlado, estamos fazendo a varredura - me tranquilizou um dos soldados.
Enquanto gravava novas imagens, agora do solo, uma vizinha gritou, chorando:
— Rodrigo, perdemos tudo.
Parei de gravar e a abracei. É aquele momento em que não sei muito o que dizer. Normalmente, como jornalista, observo o fato, entrevisto pessoas, relato o que apurei. Mas reconhecer a vizinha, proprietária de um dos estabelecimentos destruídos pelo fogo, me marcou.
Ali, diante dela, fiquei sem palavras. Só a abracei.
Esse texto tem como objetivo apenas prestar a minha solidariedade aos proprietários das três casas destruídas e aos funcionários desses estabelecimentos. Também reconhecer o trabalho do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar, da Defesa Civil e EPTC. Os bombeiros, em especial, foram sensacionais. Corajosos e rápidos.
Felizmente, ninguém se feriu.
Mas sabemos que perdas materiais também impactam: força para reconstruir! É o que desejo.



