
Era tempo de João Paulo II, e eu, jornalista iniciante, escrevi um título assim em ZH: “Papa pede paz”. A notícia, me corrigiu o então editor-chefe Ricardo Stefanelli, seria “Papa pede guerra”. Meu chefe estava certo: segundo os critérios de noticiabilidade do fazer jornalístico, em que a notícia é quando um homem morde um cachorro, e não o contrário, a informação valiosa seria aquela. Mas não era o que o papa havia dito. Então, tratei de procurar, no discurso, algo menos óbvio como título. Aprendi a lição.
Lembrei desse episódio neste dia em que a morte do papa Francisco completa um ano, porque o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, costuma ficar incomodado com essa obviedade: o fato de o Papa pedir... paz. Ora, o que se esperaria de Leão XIV, sucessor de Pedro, de João Paulo II, de Francisco e de tantos e tantos homens que, segundo a fé católica, são representantes de Deus na Terra?
O grande João Paulo II, aliás, consagrou uma das frases mais fortes vindas de um Pontífice: que o nome de Deus nunca seja usado para justificar a guerra. À época, valia tanto para George W. Bush quanto para Osama bin Laden.
E foi o próprio Francisco, não um analista de relações internacionais ou cientista político, quem identificou o fato de já estarmos vivendo uma “terceira guerra mundial fragmentada”: um estado de conflito permanente, não concentrado em um único front, como nas guerras globais do século 20, mas disperso em múltiplos focos regionais. Em vez de alianças formais claramente definidas e batalhas entre grandes potências, o que se vê são guerras simultâneas, indiretas e interligadas: conflitos no Leste Europeu, no Oriente Médio, na América do Sul, na África e na Ásia que, embora locais, envolvem interesses globais. Potências atuam por meio de proxies, apoio militar indireto, sanções econômicas e disputas tecnológicas, criando uma rede de tensões que, somadas, configuram um cenário de instabilidade sistêmica.
Essa fragmentação também altera a natureza da guerra. Não se trata apenas de confrontos militares tradicionais, mas de uma combinação de guerras híbridas: cibernéticas, informacionais, econômicas e energéticas. A linha entre paz e guerra torna-se difusa, e a população civil passa a ser afetada de forma contínua, seja por deslocamentos, crises humanitárias ou impacto econômico global.
Neste 21 de abril, dia em que, um ano atrás, Francisco "voltou à Casa do Pai", nas palavras de Kevin Farrell, camerlengo da Santa Sé que anunciou ao mundo o falecimento do Santo Padre, eu poderia escolher vários adjetivos para descrever a jornada do Pontífice argentino: o papa da simplicidade, o papa jesuíta, o papa dos pobres, o papa dos marginalizados, o papa dos migrantes, o papa direto, o papa acessível, o papa reformista, o papa progressista. Mas, com a licença do meu antigo editor, escolho o papa da paz.


