
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O pré-candidato à presidência pelo Democracia Cristã (DC), Aldo Rebelo esteve nesta quinta-feira (9) em Porto Alegre para participar do Fórum da Liberdade, que ocorreu na PUCRS.
Rebelo, que integrou governos de Lula e Dilma Rousseff, e esteve nas fileiras do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), conversou com a coluna sobre a sua ida para o DC, sobre a sua agenda de governo e sobre sua proposta de anistia aos acusados de golpe de Estado em 8 de Janeiro. Segundo ele, caso seja eleito, pretende anistiar a todos, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
O senhor participou de governos do PT, de partidos de esquerda e, agora, se lança candidato à presidência por um partido de direita, o Democracia Cristã. O que mudou? Como foi esse movimento?
Quem disse que o Democracia Cristã é um partido de direita? O Democracia Cristã está ancorado na doutrina social da Igreja, na defesa dos direitos sociais. Aliás, o direito ao trabalho no Brasil tem a sua matriz na doutrina social da Igreja. O partido tem essa dupla preocupação, com a democracia e com a doutrina social da Igreja, da luta pelos direitos sociais.
Então, como o senhor define o partido Democracia Cristã?
Eu posso me definir. O Partido Democrata Cristão é um partido da democracia cristã, é um partido plural, tem gente de tudo o quanto é tipo de pensamento. Eu sou um nacionalista que defende a democracia e os direitos dos mais pobres, que é o que eu sempre defendi.
O senhor afirmou em outras entrevistas que seria alternativa a essa polarização entre Lula e Bolsonaro. Como transformar a sua pré-candidatura, que o senhor mesmo admite ser pouco conhecida, em uma opção viável contra os outros nomes consolidados?
Você transforma com uma agenda. Você não transforma atacando A ou B. Provavelmente, as pessoas apresentarão boas razões para votar em Lula. Ninguém vota em Lula por causa do Mensalão, do Petrolão, dos escândalos. As pessoas votam no Lula, provavelmente, por vê-lo como a projeção de alguma preocupação com a questão social, com os mais pobres, com o salário mínimo, com os direitos dos trabalhadores. E em Bolsonaro é provável que as pessoas tenham votado também por projetar virtudes que aos olhos da população são importantes: o nacionalismo, a defesa dos valores nacionais, dos valores da família, dos valores religiosos, da fraternidade. Então, isso é o que faz com que as pessoas votem em candidato. Ninguém vota por causa dos defeitos, vota porque vê alguma virtude. Então, eu procuro apresentar uma agenda a partir da retomada do desenvolvimento do país, da defesa da democracia e da redução das desigualdades. Eu acho que essa agenda contempla o interesse majoritário da população, dos pobres, dos ricos, dos empresários, dos agricultores, da classe média, a agenda do desenvolvimento. O Brasil é um país rico, não é pobre, é um país interditado, institucionalmente, a partir das ações do próprio Estado brasileiro, do Supremo Tribunal Federal. Para uma ferrovia, lá no Mato Grosso, que nem sabe onde fica, o Ministério Público, que para qualquer obra em qualquer lugar, o Ibama, a Funai, o Iphan, o juiz de primeiro grau... Aqui, no Rio Grande do Sul, há a prova disso. Você tem petróleo na bacia de Pelotas parado. Você tem disponibilidade de carvão no Rio Grande do Sul, você tem uma área muito promissora para a agricultura, mas você tem a ação da Funai querendo demarcar terra indígena, a ação do ICMB e do Ibama querendo demarcar unidade de conservação onde existe agricultura há 400 anos, como é o caso daquela área de vacaria, terrenos de altitude, aquilo tem pecuária há 400 anos. Antes do Rio Grande do Sul ser português, ainda era espanhol, a primeira fazenda de vacaria foi fundada pelos jesuítas espanhóis. E agora aparece o Ministério do Meio Ambiente e diz: "Tem que demarcar para proteger". Cria um conflito, os proprietários achando que têm legitimidade na sua atividade econômica, e os órgãos ambientais dizendo que aquilo tem de ser confiscado, imobilizado, embargado. A mesma coisa agora: naquela área da Fronteira Oeste, ali nas Missões: 180 mil hectares de área para ser transformada em unidade de conservação. Isso tem cabimento? Ou seja, o Rio Grande do Sul é um Estado rico, mas interditado: as ferrovias defasadas, sucateadas, o porto de Rio Grande sucateado. Não, pessoal. Precisa parar com essa situação.
Pela fala do senhor dá a entender que hoje há muita burocracia nesses órgãos. Como mudar?
A burocracia, meu senhor, é o empoderamento da mediocridade. O burocrata não tem compromisso com nada, tem compromisso com uma norma, de onde deriva o poder que ele tem. O burocrata não tem compromisso com o desenvolvimento, com a solução dos problemas da população. Se precisa de emprego, o burocrata não está interessado nisso. Se precisa oferecer esperança para um jovem que está em uma escola técnica, em uma universidade, que só terá esperança se o país tiver desenvolvimento, atividade econômica, você precisa arrecadar tributos, porque, quem gera tributo, não é o Bolsa Família, é a atividade econômica. Impostos, empregos, divisas para exportação, a economia que vai para o comércio, para o profissional liberal, que vai para uma loja, para um dentista, para um advogado, para um farmacêutico, para um médico, é essa atividade econômica que oferece. A burocracia não tem compromisso com isso. O salário do Ministério Público está garantido. O salário do juiz de primeiro grau está garantido, o salário das corporações do Judiciário está garantido, e o país que se vire.
O senhor citou agendas de Lula e Bolsonaro. As suas políticas estão mais ligadas a quais dos dois? Ou difere delas?
Infelizmente, eu não vejo as minhas agendas em nenhuma das candidaturas. Eu vejo uma agenda contra o desenvolvimento no atual governo, e, na outra, vejo a ausência de uma agenda do desenvolvimento. É como se o país tivesse que privilegiar uma agenda ideológica. O Brasil tem que se posicionar sobre a guerra do Oriente Médio. Qual é o lado do Brasil. Há gente que acha que o Brasil tem que ficar do lado dos Estados Unidos. Ou do lado do Irã. O Brasil tem que ficar do lado do Brasil. A agenda do Brasil não pode ser a agenda dos conflitos internacionais. Nos conflitos internacionais, o Brasil tem que apresentar a solução de acordo com o artigo 4º da nossa Constituição, que diz que o país defende a solução pacífica dos conflitos. O Brasil não tem que tomar lado nesses conflitos. O Brasil não ajuda a resolver o problema se ele tomar um lado. O Brasil ajuda a resolver o problema se ele for parte da solução. Então o Brasil precisa ser parte da solução dos conflitos internacionais. Candidato que vai nos Estados Unidos "Ah, o Brasil tem a solução para os Estados Unidos enfrentar a China". O Brasil não tem que se meter no conflito dos Estados Unidos com a China, tem que ter boas relações com a China e boas relações com os Estados Unidos. O Brasil precisa ter boas relações com os dois. Se eles disputam hegemonia no mundo, é problema deles, não é nosso.
Então a agenda do senhor é olhar para o Brasil?
Em primeiro lugar, o Brasil, em segundo lugar, o Brasil e, em terceiro lugar, o Brasil. Como a nossa juventude vai ter futuro, esperança? Você vai botar um menino para estudar em uma escola técnica ou em uma faculdade e dizer para ele: "Se forme, meu filho, que a Bolsa Família está lhe esperando". Dois jovens se encontram para contrair um casamento, felizes, para viver de Bolsa Família. Não. O país tem que oferecer outra perspectiva para a nossa juventude. Essa perspectiva só existe de uma forma, com atividade econômica. Sem atividade econômica, o país não tem emprego, o país não tem impostos, o país não tem renda, o país não tem divisas, não tem nada. Vai ser o que os economistas chamam hoje de "voo de galinha": voo curto e voo baixo, que é a que foi reduzida a nossa economia com a política do atual governo. Só tem duas políticas econômicas: aumentar a despesa por causa da eleição e aumentar o imposto para pagar a despesa da eleição. Não, isso não é caminho para o país.
Como mostrar isso para o eleitorado, para fugir da polarização?
É o esforço que eu venho fazendo, viajando pelo país, vou para o Acre, vou para o Amazonas, vou para o Pará, vou para a Bahia, venho aqui ao Rio Grande do Sul, amanhã vou ao Mato Grosso, depois vou a Sergipe, à Paraíba, vou a Goiás. Faço a minha pregação, dou entrevista. Amanhã faço uma reunião aqui com agricultores para discutir essas unidades de conservação lá da fronteira Missões, para discutir as terras de altitude de Vacaria, para discutir a demarcação de terra indígena ali no norte do Rio Grande do Sul, para discutir a questão da bacia de Pelotas, para discutir o Brasil.
Caiado já se posicionou a favor do processo de anistia, se eleito. Flávio também. Zema já deu declarações similares. Qual é a avaliação do senhor?
A anistia é um processo de pacificação, ao qual o Brasil sempre recorreu. Aqui, no Rio Grande do Sul, houve uma anistia ampla, geral e restrita: degoladores foram anistiados porque nas revoluções Farroupilha tinha degola de lado a lado. Quem confiscou propriedade alheia, cavalo, vaca, em nome da revolução, foi anistiado também. O Império resolveu pagar todas as desapropriações, os que lutaram contra o Império foram incorporados no Exército imperial, do posto de soldado até o posto de coronel. Então, foi uma anistia, e além do mais, o Dom Pedro II ainda ofereceu o governo da província aos farroupilhas. Getúlio Vargas anistiou todo mundo. Dois grupos que tentaram derrubá-lo pela força. Os comunistas e depois os integralistas. Todo mundo anistiado. Figueiredo anistiou todo mundo. Regime militar... Anistiou assalto a banco, anistiou sequestro, anistiou tortura. Todo tipo de crime. Se você quiser pacificar o país, você tem o recurso da anistia. Anistia não é para inocente. Inocente não precisa de anistia. Anistia é concedida a quem, à luz de alguma norma, cometeu algum tipo de crime. Você não vai discutir aqui se a norma era justa ou injusta. Ela existia e à luz dessa norma, um crime foi cometido, e esse crime pode ser anistiado para quê? Não é porque era inocente, é porque isso pacifica o país e permite olhar para o futuro. Então, eu acho que deve olhar de lado a lado, porque tem também ainda processos pendentes na turma dos governos do PT e do governo do Bolsonaro. E principalmente aqueles acusados de golpe de Estado, aquele pessoal do 8 de Janeiro. Por favor, dizer que aquilo foi tentativa de golpe, é tirar a seriedade da palavra golpe.
O senhor é favorável à anistia dos acusados do 8 de Janeiro, inclusive do ex-presidente Bolsonaro?
Todos eles.
O senhor foi ministro da Defesa. Estamos vivendo vários conflitos geopolíticos. O Brasil precisa olhar com mais atenção para a pauta da Defesa?
O Brasil negligencia essas duas agendas: segurança pública e defesa. Aliás, o problema de segurança pública vai se tornando um problema de segurança nacional, porque o crime organizado já controla áreas urbanas e já controla áreas de fronteira na Amazônia. Eu visito a Amazônia, conheço autoridades que atuam na área de segurança pública na Amazônia. O crime organizado na Amazônia já é uma espécie de Estado paralelo, e o Brasil negligencia tanto a segurança pública quanto a defesa nacional. O Brasil não tem meios nem equipamentos compatíveis com as suas responsabilidades de país continental. Nós temos 17 mil quilômetros de fronteiras. Nós temos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo continental e mais 4,5 milhões de quilômetros quadrados de espaço aéreo no mar. Nós precisamos tomar providências imediatas para compatibilizar a política de defesa com as necessidades do país.






