
Um dos dias mais tensos da história do Oriente Médio, por conta das ameaças feitas pelo presidente Donald Trump, pode, ironicamente, ter parido o início do fim do conflito iniciado em 28 de fevereiro. Não se trata de um acordo de paz. Mas de uma trégua, pode se tornar um cessar-fogo duradouro.
Faltava uma hora e meia para o fim do prazo do ultimato dado pelo presidente americano para eliminar "uma civilização". Trump, em sua rede social, Social Truth, anunciou que havia aceitado um cessar-fogo sob condição de o Irã reabrir o Estreito de Ormuz.
Mas por que o presidente americano recuou?
1 - Surtiu efeito a intensa pressão internacional feita ao longo do dia, depois da frase absurda de Trump. Essa pressão envolveu, inclusive, o papa Leão 14 (um americano) em uma mensagem direta ao presidente, dizendo que a ameaça era "inadmissível". Não é comum um Pontífice se dirigir diretamente a um chefe de Estado nem responder, publicamente, a uma fala do presidente de uma nação no mesmo dia.
2 - Também pesou na balança a pressão doméstica: movimentos conservadores, setores do MAGA, que votaram em Trump confiando em uma agenda política focada em temas internos - emprego, inflação, renda, saúde. A guerra aumentou os preços de combustíveis nos EUA, resultando em crescimento da inflação. É ano eleitoral: em novembro, os americanos irão às urnas em pleito de meio de mandato. Há risco sério de os republicanos perderem as maiorias na Câmara e no Senado.
3 - O presidente deve ter avaliado os riscos de uma invasão em larga escala. O Irã é uma fortaleza quase impossível de ser conquistada. Uma operação terrestre implicaria perda de militares dos EUA. A imagem de caixões cobertos com a bandeira americana é algo que a opinião pública americana não tolera. E isso já aconteceu nessa guerra.
4 - Por fim, o estilo de Trump, um líder político que atua como um jogador. Ele lança mão de blefes: dobra a aposta, para ver se o oponente cede. E depois, recua. O acrônimo "TACO" ou "Trump Always Chickens Out" (Trump Sempre Amarela) popularizou-se entre investidores de Wall Street para descrever a tendência do presidente de ameaçar com tarifas comerciais pesadas e, em seguida, recuar ou adiar as medidas. O termo sugere que ele "amarela" ou afrouxa sob pressão, sendo uma tática para negociar e causar recuperação do mercado. Já era conhecido o comportamento em relação à guerra tarifária. Agora, ele se estende ao conflito armado.
Alguém dirá: "mas Trump conseguiu o que queria, a reabertura do Estreito de Ormuz". Ok, pode ser uma vitória a curto prazo, por 15 dias. Mas o que virá depois? O recomeço do conflito? Porque não será paz.
Por isso, insisto na questão dos objetivos militares da guerra, que Trump até hoje não disse quais são. São eles que permitem medir o sucesso: é mudar o regime? Não mudou. É eliminar a capacidade militar do Irã? Não eliminou. É obliterar o processo de enriquecimento de urânio? Não sabemos.
O Irã sai fortalecido, porque sobreviveu.



