Em 22 de março, Donald Trump deu um ultimato de 48 horas ao Irã, que foi adiado por cinco dias. Chegados os cincos dias, ele prolongou o prazo por mais 10.
No final de semana, o presidente refez a ameaça, depois que o Irã abateu dois caças americanos. Trump, então, ameaçou atacar todas as infraestruturas de energia do Irã, o que seria um crime de guerra, e lançou mão da já histórica e infame frase de que uma civilização inteira morreria.
Uma hora e meia antes de o ultimato expirar, para alívio do mundo, ele recuou de novo.
Isso faz dos EUA os perdedores do conflito até agora. O "morde e assopra" de Trump mina a credibilidade da maior potência econômica e militar do planeta — o presidente faz ameaças e não as cumpre. Além disso, ao brincar de Deus, Trump mexe com os mercados, com o preço do petróleo e provoca instabilidade global.
Em cinco semanas de conflito, os EUA não conseguiram garantir a segurança de aliados árabes no Golfo Pérsico. Países como Catar, Emirados, Kuwait, Arábia Saudita, que aceitaram ter bases militares americanas em seu território em troca de defesa em caso de guerra, ficaram muito vulneráveis ao Irã. Algumas dessas nações aceitaram abrigar essas unidades a preços domésticos altíssimos. O caso da Arábia Saudita, berço do Islã, é emblemático: não se pode esquecer o cerne do argumento de Osama bin Laden, em 11 de setembro de 2001, para realizar os atentados contra os Estados Unidos: a presença de infiéis no solo sagrado do profeta.
Se EUA e seus aliados árabes são os principais perdedores até o momento, quem seriam os vencedores?
O Irã sofreu baixas, a maior delas a eliminação do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, mas também muitos membros de alto escalão da Guarda Revolucionária, e teve sua infraestrutura militar bastante atingida, especialmente centros de comando e controle — a grande incógnita é a condição das estruturas de enriquecimento de urânio. Mas, para quem lutou uma guerra de sobrevivência, o fato de permanecer em pé diante da ira americana, é uma conquista.
Além disso, ficou muito claro que Estreito de Ormuz é a verdadeira arma do Irã: abre e fecha a passagem quando quer. Começa a ganhar força a ideia de ser cobrada uma espécie de pedágio, pelos aiatolás, para que navios petroleiros passem por ali.
O conflito também ampliou o abismo entre EUA e Europa: os americanos convocaram os europeus para reabrir o Estreito de Ormuz, e eles não foram. Já havia uma crise na aliança militar, a Otan, por conta da redução de gastos pelos EUA.
As fissuras no guarda-chuva militar do Ocidente fazem da Rússia uma vencedora colateral do conflito. Não só do ponto de vista estratégico, mas também em termos de argumento: os EUA atacaram o Irã de forma unilateral, como Vladimir Putin fizera na Ucrânia. Que credibilidade os americanos terão para condenar ações armadas contra outras nações soberanas, à margem do Direito Internacional, no futuro?
A trégua de terça-feira (7) só foi possível após os esforços do Paquistão, que já mediava as conversações até então infrutíferas. Não foi o Catar, tradicional mediador entre Israel e o grupo terrorista Hamas, nem a Turquia, ator fundamental das últimas negociações regionais. O Paquistão cresce em importância geopolítica e comprova que só é respeitado no tabuleiro global quem dispõe de armas nucleares.
Mas foram os chineses que mais ganharam até agora. Quando faltavam poucas horas para o ultimato expirar, houve uma surpreendente intervenção da China para que o Irã flexibilizasse suas exigências. Ainda não se sabe detalhes sobre o acordo nem como foram conduzidas as conversas, mas chamou atenção a revelação de que a China participou da intervenção. Até então, Pequim se mantinha distante — ao menos em público — da escalada do conflito. Mas, nos bastidores, está muito claro que é Pequim quem manda o Irã abrir e fechar a passagem pela qual cruza 20% do petróleo mundial.



