
Sejamos sinceros: o cessar-fogo no Oriente Médio está cheio de furos.
Desde que foi anunciado, na terça-feira (7), o que se viu foi o oposto de uma trégua: bombas continuaram caindo. Com menor intensidade no Irã, mas, em outras áreas, como no Líbano, a situação só piorou.
Entre aliados dos Estados Unidos, Kuwait e Arábia Saudita voltaram a ser alvo de mísseis e drones iranianos. Ao mesmo tempo, a continuidade dos ataques israelenses contra o Hezbollah, em território libanês, levou Teerã a retomar uma de suas armas mais efetivas: o fechamento do Estreito de Ormuz.
Adoraria acreditar que as negociações entre americanos e iranianos, em Islamabad, possam levar a uma paz duradoura. Mas basta observar os 10 pontos apresentados pelo Irã para perceber que, nos termos atuais, dificilmente haverá acordo.
Um dos principais entraves é a manutenção do enriquecimento de urânio. Na quarta-feira (8), o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que os EUA teria concordado com essa condição. Donald Trump, no entanto, negou. Disse que pretende “escavar” todo o urânio enriquecido do território iraniano — inclusive com a cooperação de Teerã.
Há sinais claros de inconsistências. O documento divulgado pelo Irã, em farsi, inclui a expressão “aceitação do enriquecimento” no programa nuclear — algo que some nas versões em inglês distribuídas por diplomatas iranianos a jornalistas.
As propostas, além disso, são vagas e ambíguas, o que dificulta qualquer tentativa de implementação concreta de uma trégua. No centro da disputa está justamente o programa nuclear iraniano, cercado por suspeitas de que o país busca alcançar o nível de enriquecimento necessário (cerca de 90%) para a produção de uma arma atômica.
O Irã também rejeita a ideia de cessar-fogo temporário, argumentando que serviria apenas para dar fôlego aos adversários. Exige condições rígidas para um acordo definitivo, incluindo a interrupção total das hostilidades e garantias efetivas de segurança.
Nesse cenário, a missão do vice-presidente J.D. Vance à frente da delegação americana em Islamabad se torna uma das mais complexas desde que chegou, com Trump, à Casa Branca. Ele terá de equilibrar interesses profundamente divergentes: os de Trump (que precisa terminar a guerra), os dos aiatolás (que precisam de uma narrativa vencedora), os de Israel (que já mostrou interesses divergentes em relação aos EUA) e os dos aliados árabes dos Estados Unidos — como Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita —, alvos diretos das retaliações iranianas e desconfiados sobre futuras garantias de segurança sob o guarda-chuva americano.
Ao deixar Washington, na manhã desta sexta-feira (10), Vance afirmou que Trump deu à equipe “diretrizes bastante claras” para a negociação. Quais são essas diretrizes — e, sobretudo, se elas serão suficientes para produzir algum resultado concreto — ainda é uma incógnita.



