
A mais dura declaração de Donald Trump desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, veio nesta terça-feira (7) carregada de ameaças e simbolismo: "Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada", disse o presidente na Truth Social, sua rede social.
É claro que Trump não está pensando em matar toda a população iraniana, o que transformaria em um criminoso de guerra em níveis comparáveis a outros genocidas da história da humanidade. A frase, um esforço retórico (ou uma bravata), tem como destino o regime dos aiatolás.
Mas com a frase intempestiva, ao referir-se a uma civilização, ele comete dois equívocos: o primeiro deles da generalização. Tomando o todo pela parte. Como se toda a população iraniana, herdeira da grande civilização persa, fosse responsável pelos crimes do governo que está há 47 anos no poder. É um erro comum, como de pessoas que, por ignorância ou interesses políticos, confundem o grupo terrorista Hamas com a legítima causa palestina, ou os erros, crimes e excessos do governo de Benjamin Netanyahu com o direito de Israel de existir.
O segundo equívoco é de ordem mais profunda. Setores ultraconservadores americanos que formam a base do governo Trump, como a alt-right, acreditam que vive-se, no mundo contemporâneo, uma guerra de civilizações — o Ocidente cristão, branco e anglo-saxão, supostamente, por essa visão, superior, versus o Oriente, em geral muçulmano, não branco e que fala outros idiomas como o árabe, o farsi, o mandarim.
Trata-se de uma construção histórica, cultural e sociológica que associa a identidade civilizacional ocidental, protestante, à herança europeia germânica (anglo-saxão). Essa expressão é frequentemente ligada ao conceito Wasp (White anglo-saxon protestant), que historicamente representou a elite cultural e de poder nos EUA.
O livro Choque de Civilizações (1996), Samuel Huntington, que Trump nunca deve ter lido, cunhou essa teoria, muito influente nos círculos politicamente conservadores. Por sua tese, os principais atores políticos do século 21 seriam civilizações e não Estados nacionais, e as principais fontes de conflitos após a Guerra Fria, não seriam as tensões ideológicas, mas as culturais. Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 deram força a essa tese.
Essa lógica, entretanto, é reducionista, tratando as civilizações como blocos monolíticos e estáticos, ignorando as intensas variações internas, contradições e interações entre diferentes culturas. Além disso, superestima a religião e a cultura como causas primárias de conflito. No contexto atual, da guerra entre EUA e Irã, não se trata de diferenças culturais, mas de luta por poder econômico e de influência geopolítica.




