
Quando se pensa em atentados contra civis ou contra o presidente, como a ação deste sábado (25) que, aparentemente tinha como alvo Donald Trump, nos Estados Unidos, é quase instantâneo apontar o dedo para o terrorismo islâmico.
Ainda que não se saiba, até o momento, as motivações de Cole Tomas Allen, preso após disparos no jantar dos correspondentes da Casa Branca, onde estava Trump, tudo indica que ele tenha agido sozinho, sem motivações no fundamentalismo islâmico.
Os maiores atentados terroristas da História, em 11 de setembro de 2001, e os ataques à maratona de Boston, em 2013, foram ações fora da curva.
A maioria dos ataques em solo americano nos últimos 30 anos foi cometida por cidadãos nascidos nos EUA e motivada pelo extremismo doméstico, especialmente ligado a supremacistas brancos, e fatores individuais, como problemas psicológicos.
A violência política esteve por trás de um dos maiores ataques à democracia da história americana: o 6 de janeiro de 2021, quando uma turba de apoiadores de Trump invadiu o Capitólio, sede do Congresso, para tentar impedir a certificação da vitória eleitoral de Joe Biden.
O próprio republicado já foi alvo de duas tentativas de assassinato - a deste sábado (26), a se confirmar que ele seria o alvo, seria a terceira. Em julho de 2024, um homem disparou vários tiros contra o então candidato, durante comício em Butler, na Pensilvânia, atingindo, de raspão, sua orelha. Dois meses depois, enquanto jogava golfe na Flórida, um outro suspeito foi detido ao apontar, em meio a arbustos, uma arma contra Trump. O agressor em potencial foi condenado à prisão perpétua por "tentativa de assassinato de um importante candidato à presidência".
A própria comunidade de inteligência, formada por órgãos como o Federal Bureau of Investigation (FBI) e o Department of Homeland Security, as duas principais agências de segurança doméstica, reconhece publicamente que o terrorismo interno é a principal ameaça.
Foi assim, por exemplo, no maior atentado terrorista da história americana antes do 11 de setembro de 2001: a explosão de um prédio federal em Oklahoma, em 1995, que deixou 168 mortos e feriu mais de 600 pessoas. O autor, Timoty McVeigh, acreditava que o governo dos EUA (à época, sob comando do democrata Bill Clinton) havia se tornado tirânico, opressor de liberdades individuais e inimigo dos próprios cidadãos. Com grande influência de milícias anti-governo e grupos de extrema direita, o extremista inspirou-se, em grande parte, no cerco de Waco, a operação federal contra uma seita, que resultou na morte de 86 pessoas.
Mesmo atentados em escolas e universidades, infelizmente uma tradição nos EUA (de Columbine, em 1999, a Robb Elementary School, em 2022), são, em geral, motivados por fatores internos: trajetória pessoal, sofrimento psíquico, ideação suicida, busca de notoriedade e ressentimentos, associados a questões sociais, como bullying, conflitos interpessoais e exposição a conteúdos violentos, que ajudam a compor um cenário terrível e preenchem uma lista enorme de atentados desse tipo nos EUA.
Violência política ou ações mortíferas em ambientes educacionais não ocorrem apenas nos EUA, por óbvio. O próprio Brasil tem seu exemplos, como a facada ao então candidato Jair Bolsonaro, a invasão dos principais prédios da República, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, ou tragédias em colégios nas capitais e no interior do país. Mas, nos Estados Unidos, esses desastres normalmente estão associados a extremismo interno, acesso a armas, visibilidade e notoriedade dos atacantes, turbinados por ambientes tóxicos digitais e forte conflito político.
A verdadeira ameaça, comprovam as estatísticas e um macabro histórico, nos EUA, vem de dentro da nação.




