
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Um dos principais nomes do Fórum da Liberdade 2026, o americano Adam Howard teve uma trajetória de 22 anos no Departamento de Estado dos EUA: dirigiu o Escritório de História do órgão, supervisionando a publicação da série Foreign Relations of the United States (FRUS) — o registro documental oficial da política externa do país.
Anos antes, atuou como chefe da Divisão de Oriente Médio e Ásia no Escritório de Segurança Interna (DHS).
No ano passado, Howard assumiu a diretoria executiva da International Churchill Society, entidade responsável pela memória do ex-primeiro-ministro britânico. Além de sua atuação institucional, é professor adjunto de História e Relações Internacionais na Universidade George Washington.
Em sua primeira passagem pela América do Sul, ele conversou com a coluna nesta quarta-feira (8). Howard falará no Fórum da Liberdade na sexta-feira (10).
Qual será o foco da sua apresentação no Fórum?
Sou historiador, ao invés de um analista contemporâneo. Então, vou falar sobre coisas de hoje por meio do prisma da história: como as coisas mudaram, mas outras coisas não quando olhamos a partir da perspectiva do tempo.
Você é diretor na Sociedade Internacional Churchill, que trabalha para preservar o legado histórico de Winston Churchill. Como atuam e como assegurar esse legado?
Nosso maior foco é tentar fazer com que pessoas mais jovens entendam por que ele é relevante hoje e não apenas sobre o que ele fez no passado. Então, trata-se de encontrar esses temas. Os assuntos sobre os quais eu sempre falo é resiliência. Também falamos sobre a curiosidade que ele tinha, sobre o mundo ao seu redor e por que isso era importante e por que outras pessoas poderiam aprender com isso. Também abordamos sobre como ele tinha ambições, como ele sempre tomou ação. Ele tinha memorandos que dava para as pessoas com as quais trabalhava. No topo, dizia: "ação neste dia". A ideia era: não perca tempo, sempre trabalhe para o seu objetivo.
Hoje em dia há políticos no mundo que seguem as ideias de Churchill? Poderia dar exemplos?
Com as ideias dele, sim. O que é tão fascinante é que, só nos Estados Unidos, nos últimos 50 anos, haja tantos presidentes que amam Churchill. Por exemplo, o presidente Kennedy (John F. Kennedy) trabalhou com o Congresso para dar a cidadania honorária a Churchill, o que fez. Churchill estava muito doente para vir aos Estados Unidos na época, mas, no final, Kennedy pensou que o que fizera fora tão heroico durante a Guerra Mundial (que valia à pena). E aí você tem os presidentes Obama (Barack Obama), Reagan (Ronald Reagan), Bush (George W. Bush), Trump (Donald Trump), Biden (Joe Biden), eles todos gostam de Churchill. Todos o prezam. Isso é só na política. Na área de negócios, muitas pessoas também o amam. Bob Iger, que acabou de se aposentar da Walt Disney Company como CEO, constantemente fala sobre como ele nunca leu um livro sobre finanças, mas ele leu todos sobre Churchill, porque acha que ele é um ótimo exemplo para líderes.
Você incluiria Donald Trump entre eles?
Sim, ele mantém o busto de Churchill no Salão Oval.
O senhor atuou como historiador-chefe do Departamento de Estado dos EUA e diretor do Gabinete do Historiador, onde supervisionava a publicação da série Relações Exteriores dos Estados Unidos e preparou estudos históricos relevantes para políticas públicas dos EUA. Como era esse trabalho?
A série dos Estados Unidos é a história documental oficial das relações estrangeiras dos EUA. Começou em 1861 com o presidente Lincoln (Abraham Lincoln). Eu estava tão orgulhoso de trabalhar naquilo, sobre a noção de que, para ser uma democracia, você tem de ter transparência, saber o que seu governo está fazendo. Seja em 1861 ou nos últimos 30 anos. Esse é considerado um dos maiores projetos de transparência documental do mundo. E é algo que sempre fez muito feliz. Eu me sinto privilegiado em ter trabalhado naquele projeto. As pessoas com as quais trabalhei para a Departamento de Estado levaram a sério. Sempre fizemos com que tivéssemos os recursos necessários para realizar o trabalho. Além disso, eu também estive envolvido em fornecer a políticos contextos históricos para que pudessem tomar decisões estando mais bem informados. Isso sempre foi muito gratificante: fornecer um background histórico para que os políticos e os líderes no Departamento de Estado pudessem tomar decisões melhores, não importando onde estivessem envolvidos no mundo.
E qual é a sua atuação mais significativa?
Um monte de coisas. Estou muito feliz com o fato de o governo dos EUA investir em historiadores para fazer esse tipo de trabalho para que sua história seja preservada. Não todos fazem isso. E os EUA realmente colocam muita ênfase na necessidade de preservar documentos para que as pessoas possam aprender e entender como podem fazer as coisas melhor, seja qual for o seu trabalho e quais os seus objetivos no futuro. Tanto republicanos quanto democratas, não importa quem estava no governo. Ambos se sentiam assim. E isso foi algo que eu sempre apreciava.
É um trabalho contínuo ou muda a cada gestão?
É um trabalho contínuo. Todo mundo que trabalhou no Escritório de História não era ligado a partidos. Não importava quais eram as suas crenças políticas. Ninguém interferiu. Ninguém disse que precisávamos documentá-lo dessa maneira ou de outra maneira, ou esconder isso ou aquilo. Todo mundo entende que é parte do registro oficial, e, na verdade, muitos cooperaram com a gente. Pessoas que haviam servido em administrações anteriores sentavam conosco para que pudéssemos entrevistá-los.
O senhor atuou como chefe da divisão do Oriente Médio e Ásia no Escritório de Segurança Interna. Olhando para o passado e para o momento de agora vivido no conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o mundo esteve perto de uma Terceira Guerra Mundial?
Bem, eu sou apenas um historiador, mas diria que nós não estamos tão perto da Terceira Guerra Mundial. No entanto, há, obviamente, questões muito sérias que precisam ser abordadas para garantir que isso não se torne um problema maior.
E você acha que o Irã e os Estados Unidos encontrarão uma maneira de trabalhar juntos para um cessar-fogo?
Historicamente, ambos os países reconhecem que, para sucesso em suas agendas, vão ter de encontrar um caminho à frente. Como eles farão isso, eu não sei. Baseado na História, eu diria que eles vão procurar encontrar algum tipo de caminho para frente.



