
Os Estados Unidos se acostumaram com guerras-relâmpago, do tipo "decapitação do regime". Foi assim no Afeganistão e no Iraque. Donald Trump é um fã desse tipo de ação "blitzkrieg" do século 21.
Contudo, a Venezuela já havia sinalizado que a neutralização do líder não resulta, necessariamente, em mudança de regime. Ao se meter no Irã, o presidente americano imaginou um sucesso instantâneo. Ainda mais que, no primeiro dia da guerra iniciada em 28 de fevereiro, os americanos mataram o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e boa parte da cúpula do regime. Mas a esperada revolta da população não veio, o governo mostrou-se resiliente, descentralizou o comando e fez o mundo prender a respiração — e o bolso — ao transformar o Estreito de Ormuz em arma de guerra.
Trump, que tinha pressa para acabar com o regime passou a ter pressa para acabar com a guerra, antes que fosse tarde demais para quem enfrentará, daqui sete meses, as eleições decisivas sobre seu futuro político: soldados americanos voltando dentro de caixões, pilotos ejetando de caças abatidos nos céus do Irã, inflação em casa, preço do barril de petróleo nas alturas.
Não, o Oriente Médio não é para amadores ou principiantes. Um amálgama de complexidades políticas, rixas ancestrais, traições, instrumentalização religiosa, desejos de vingança e reparação e ódios históricos tornam essa região do planeta a mais instável do planeta.
Trump, com a mesma pressa que tinha para acabar com o regime iraniano, agora, tem pressa para anunciar uma paz a qualquer custo: isso explica, em parte, as postagens frenéticas nas últimas horas em sua rede social particular, atropelando a razão e antecipando movimentos que serão feitos à mesa de negociações. Entre as frases assoberbadas certamente está seu anúncio de que o Irã teria prometido nunca mais vai fechar o Estreito de Ormuz. Falta, talvez, combinar com os russos... digo... chineses.
Uma semana em que o mundo foi do otimismo ao fracasso — e retornou, na sexta-feira (17) ao otimismo —, ensinou que a paz no Oriente Médio passa pelo Líbano. Foi o cessar-fogo entre Israel e o governo libanês que destravou o diálogo com os aiatolás, e, ao que tudo indica, uma nova rodada de diálogo em Islamabad neste final de semana.
Mas décadas de história na região também ensinam que não se pode cantar vitória antes do tempo: trégua frágil, denúncias mútuas de violações, informações contraditórias sobre até que ponto o Estreito de Ormuz está, de fato, aberto, todos os lados com o dedo no gatilho. A região entrou em uma fase em que a fronteira entre guerra e paz está mais cinzenta do que nunca.

