
Seria lamentável que um capítulo relevante da presença brasileira na Antártica chegasse ao fim em meio a divergências ideológicas. A Estação de Apoio Antártico em Rio Grande (Esantar-RG), instalada há mais de quatro décadas no campus da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), foi retirada da instituição após o encerramento do convênio com a Marinha do Brasil.
A estrutura desempenhava um papel estratégico: era responsável pela guarda, controle, manutenção e distribuição de materiais destinados às missões no continente gelado. Ali estavam armazenados desde vestimentas especiais e equipamentos de alpinismo até veículos de neve, além de alimentos, medicamentos e insumos utilizados por pesquisadores e equipes técnicas.
A base funcionava na universidade desde 2 de dezembro de 1983, fruto de um acordo entre a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm) e a Furg.
As razões da mudança, no entanto, são alvo de controvérsia. A Marinha sustenta que a decisão é de natureza logística: a transferência para a Estação Naval de Rio Grande permitiria maior capacidade de armazenamento e operação. Já a Furg, em nota oficial, informa que o encerramento se deu pelo fim do contrato, sem renovação (leia na íntegra ao final do texto).
Em abril de 2024, o Conselho Universitário (Consun) da universidade aprovou a cassação de títulos de Doutor Honoris Causa concedidos, durante o regime militar, a figuras como Emiliano Garrastazu Médici, Maximiano da Fonseca e Golbery do Couto e Silva.
O caso de Maximiano é particularmente sensível, já que seu nome batiza o navio polar utilizado pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Ainda assim, a eventual relação entre os episódios pode explicar o contexto, mas não necessariamente justificar a decisão.
Ainda que oficialmente, Furg e Marinha não relacionem o fim da parceria à cassação dos títulos dos oficiais da ditadura, a coluna interpreta que a não renovação do contrato soa como punição ideológica.
Não há ambiente mais adequado para atividades científicas do que uma universidade. Em um momento de emergência climática e de intensificação de eventos extremos — que, não por acaso, atingem o próprio Rio Grande do Sul —, a retirada da estação da Furg transmite um sinal preocupante. Soa como um afastamento entre Estado e academia em um campo no qual a cooperação deveria ser não apenas desejável, mas essencial.
Confira a nota da Furg na íntegra:
"O convênio entre a FURG, Fundação de Apoio à Universidade Federal do Rio Grande (FAURG) e Marinha do Brasil – Secirm, que tratava do centro logístico de Apoio às Operações no Continente Antártico, assinado em 2020, encerrou seu prazo de vigência em outubro de 2025 conforme previsto em contrato. A participação de ambas as partes foi cumprida de forma integral, no que se refere ao pactuado no acordo de cooperação mútua.
É preciso ressaltar que o projeto não trazia recursos para financiamento das atividades da Universidade, ao longo dos cinco anos de vigência do último convênio, a Marinha do Brasil aportou cerca de R$ 11,8 milhões para a logística do apoio antártico, ou seja, o montante, administrado pela FURG e pela FAURG, foi utilizado, em conjunto com a Secirm, para compra e manutenção de equipamentos, contratação de pessoal, aquisição de material de consumo e gêneros alimentícios, por exemplo. Na prática, o valor nunca foi investido na Universidade, mas sim no funcionamento do projeto.
Vale destacar, que o convênio não contemplava o pagamento de bolsas para estudantes ou pesquisadores. Portanto, com o encerramento das atividades, não há o prejuízo de nenhuma pesquisa em andamento e tampouco perda de investimentos.
Em nível municipal, é importante registrar que Rio Grande permanece um ponto estratégico de operações da Marinha do Brasil, e continua sediando a Esantar-RG, que agora passa a operar junto à Estação Naval de Rio Grande.
No mais, FURG e Marinha do Brasil mantêm uma excelente e longínqua relação institucional, com o desenvolvimento de uma série de outros projetos, e, dessa forma, todos os pesquisadores que já atuavam junto à Marinha seguem desenvolvendo seus estudos e pesquisas normalmente, inclusive no apoio antártico.
A FURG e a Marinha do Brasil se respeitam e seguem trabalhando conjuntamente pelo desenvolvimento do nosso território."
Nota da Marinha enviada à jornalista Laura Cosme:
"Prezado jornalista,
Em atenção ao seu questionamento, a Marinha do Brasil esclarece que a mudança da sede da ESANTAR−RG para a Estação Naval de Rio Grande
(ENRG) se deu por razões de cunho logístico, o que representou um grande avanço, uma vez que a nova estrutura está localizada a 500 metros do Porto de Rio Grande, facilitando o apoio aos Navios que participam das Operações Antárticas (OPERANTAR). A nova estrutura também permitiu uma ampliação na capacidade de armazenamento, com uma área de cerca de 1.600 m2, concentrando em um único espaço todos os equipamentos de acampamento, vestimentas antárticas e as viaturas que prestam apoio ao Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). Todas as ações do Programa que eram desenvolvidas pela FAUR permanecem na cidade de Rio Grande.
A Universidade Federal do Rio Grande (FURG) participa normalmente do PROANTAR com os seguintes projetos:
⁃ BALEIAS – o projeto estuda a diversidade, ecologia espacial e uso do habitat por cetáceos no oceano austral no contexto das mudanças climáticas - Prof. Luciano Dalla Rosa;
⁃ IMPACTANT - o projeto estuda o impacto das mudanças climáticas na biodiversidade e resiliência dos ecossistemas marinhos na região da Península Antártica – Prof Eduardo Secchi; e
⁃ PROSAMBA - o projeto estuda os processos oceanográficos em hotspots climáticos do oceano austral - Prof. Rodrigo Kerr."

