
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O papa Leão XIV e o presidente Donald Trump protagonizaram, neste fim de semana, uma intensa troca de farpas. No domingo (12), o Pontífice foi alvo de ataques do líder americano que, em publicações nas redes sociais, chamou o Papa de "fraco".
O republicano também compartilhou uma imagem em que aparecia como Jesus Cristo — postagem que foi apagada posteriormente.
Essa não é a primeira vez que um líder da Igreja Católica se posiciona — e faz declarações diretas — sobre conflitos armados ou enfrenta líderes mundiais em defesa da paz.
Primeira e Segunda Guerra
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), após a morte de Pio X, Bento XV foi eleito novo Papa. Seus esforços concentraram-se no combate ao conflito, que ele classificou como o “suicídio da Europa civilizada” e um “massacre inútil”.
Em 1917, ele apresentou um plano de paz de sete pontos, que acabou ignorado pelas potências do conflito. Diante do impasse, ele voltou a atuação da Igreja para o socorro humanitário a prisioneiros e feridos.
No ano em que teve início a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Pio XII assumiu o pontificado. Embora sua postura pública tenha sido alvo de debates, arquivos do Vaticano e pesquisas recentes — como as de Johan Ickx no livro “Pio XII e os Judeus” — revelam que o Papa salvou cerca de 15 mil judeus.
Entretanto, Pio XII evitou condenar o nazismo diretamente para evitar represálias contra católicos. Críticos o chamam de "Papa de Hitler", enquanto defensores destacam o resgate silencioso de judeus. Inclusive, o Pontífice chegou a ser ameaçado de sequestro por Adolf Hitler e, por precaução, teria redigido uma carta de renúncia que deveria ser publicada caso fosse capturado, permitindo que a Igreja elegesse um sucessor e não ficasse refém do Terceiro Reich.
Em 2023, um documento descoberto sugeriu que o papa Pio XII tivesse informações sobre os campos de concentração nazistas e o extermínio em massa de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. A carta foi publicada pelo caderno La Lettura, do jornal italiano Corriere della Sera.
Os papas da Guerra Fria
Conhecido como o "Papa da Bondade", João XXIII foi fundamental durante a Guerra Fria. Sua encíclica Pacem in Terris (1963) tornou-se um marco ao afirmar que a paz só se estabelece no "pleno respeito da ordem instituída por Deus". Ele mediou, silenciosamente, a Crise dos Mísseis em Cuba (1962) entre John F. Kennedy e Nikita Khrushchev, atuando como um canal diplomático.
Primeiro papa polonês, João Paulo II teve um papel geopolítico decisivo na queda do comunismo na Europa Oriental. Anos mais tarde, em 2003, tornou-se um crítico da invasão do Iraque pelos EUA, alertando profeticamente que a violência geraria mais violência no Oriente Médio.
Sucessor de João Paulo II, Bento XVI manteve a linha pacifista. Em 2008, perante a ONU, reafirmou que o diálogo e o multilateralismo seriam as únicas saídas para os conflitos, defendendo a "responsabilidade de proteger" as populações civis.

Já o papa Francisco elevou o tom contra a indústria das armas, pedindo insistentemente o fim dos conflitos. Durante seu pontificado, o mundo testemunhou várias crises no Oriente Médio (Síria e Iraque), no Leste Europeu (Ucrânia e Rússia) e na África Subsaariana (Sudão e República Democrática do Congo). Francisco colocou em prática o conceito de que vivemos uma "Terceira Guerra Mundial combatida em pedaços", conectando a violência armada à crise climática e à exclusão social.






