
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Imagine você pilotando um avião em um trajeto costumeiro entre Xanxerê, no oeste de Santa Catarina, com destino a Porto Alegre e, ao olhar para o lado, deparar-se com um caça da Força Aérea Brasileira (FAB) interceptando seu voo.
Foi exatamente isso que ocorreu com o piloto João Paulo de Almeida, no dia 31 de março, enquanto pilotava um Piper M500 sobre Lagoa Vermelha: um caça F-5 Tiger II posicionou-se a aproximadamente quatro metros de distância da sua aeronave para uma interceptação rotineira.
Piloto e sócio fundador da empresa Jetshare, de Chapecó, Almeida, que conta com 14 anos de aviação, nunca tinha passado por uma experiência dessa. Ele contou à coluna como foi o episódio:
Como foi o episódio?
Eu tinha decolado de Xanxerê e estava indo para Porto Alegre. Suponho que a interceptação tenha ocorrido enquanto passava por Lagoa Vermelha. Eu estava a 24 mil pés e utilizávamos proteção de sol devido à radiação solar. Estávamos eu, o copiloto e três passageiros na aeronave, quando vi que eles começaram um tumulto atrás, dizendo: "Olha, tem uma coisa lá fora". Aí me cutucaram, eu tirei a proteção e vi que havia um baita de um caça F-5 ao meu lado. Nós temos protocolos e conhecemos todos os procedimentos. Nessas situações, caso ele balance a asa, eu devo balançar a asa também para dizer: "Olha, eu entendi os seus comandos de interceptação". Mas, nesse caso, existe um protocolo que sempre devemos utilizar, que é a comunicação na frequência de emergência: 121.5. Essa é uma frequência universal aqui no Brasil e a sintonizamos para fazer a comunicação com a aeronave interceptadora. Isso faz parte da legislação. O piloto militar fez algumas perguntas de praxe, como qual era a minha origem, de onde eu estava vindo e para onde eu estava indo, qual era o motivo do voo e se era táxi aéreo, voo comercial ou particular. Respondi que era um voo particular privado da aviação executiva. Ele ficou um período em silêncio — deve ter consultado o sistema junto ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo — e então pediu as minhas credenciais como piloto, as quais informei. Só que o interessante é que, antes dessas perguntas, ele declarou: "Aeronave interceptada, agora você está sendo controlado pela aeronave interceptadora. Obedeça a todos os comandos". Ou seja, naquele momento, minha aeronave estava retida, eu não podia mais executar comandos por conta própria. Todas as minhas atitudes e ações deveriam ser deliberadas pela aeronave interceptadora. Depois de passar as credenciais, houve um silêncio e ele disse: "Está tudo certo com a sua operação, agora você está livre e liberado para prosseguir".

Havia quantas pessoas dentro da sua aeronave?
Dois tripulantes, piloto e copiloto, e três passageiros.
Quanto tempo durou?
Suponho que foram uns cinco minutos, mais ou menos.
Como localizaram vocês?
Aqui, na região do Rio Grande do Sul, temos duas bases aéreas: a de Santa Maria e a de Canoas. Em praticamente todo o Estado, existem áreas condicionadas. O que são essas áreas? São zonas restritas ou proibidas, onde ocorrem procedimentos de treinamento ou atividade militar. Acredito que eu estava passando bem em cima de uma dessas áreas. Ela não estava ativa no momento, mas é uma zona de treinamento. Suponho que esse caça estivesse por perto e o piloto tenha recebido um comando do centro de controle militar para interceptar minha aeronave ou executar algum treinamento de interceptação. No Rio Grande do Sul é muito raro isso acontecer, normalmente, vemos interceptações em fronteiras, como no Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul. Por caças F-5, é muito difícil. Esse caça (que interceptou Almeida) faz parte do Esquadrão Pampa, de Canoas.
Você pilota há 14 anos. Já tinha passado por algo assim?
Não, foi a primeira interceptação. Fiquei muito surpreso, pois é raro um piloto passar por isso. Tenho pouquíssimos amigos que vivenciaram uma interceptação. Normalmente ocorre em regiões de fronteira ou quando há suspeita de aeronave clandestina, transporte de drogas ou falta de resposta no rádio. Existe também a questão de segurança: se eu deixar de responder por um tempo determinado, o controle de tráfego aéreo aciona o Ministério da Defesa para interceptarem a aeronave e verificarem o que houve, se todos estão bem ou se ocorreu uma pane. Mas é algo difícil de ocorrer de fato. O piloto foi muito cordial e desejou um bom voo. Pelo teor da abordagem, acredito que tenha sido, de fato, um treinamento militar.
E se você não obedecesse aos comandos?
Inicialmente, ele me instruiria a pousar no aeroporto mais próximo. Se, mesmo assim, eu não obedecesse, ele daria um tiro de aviso. E se a desobediência persistisse, ocorreria o abate. Hoje, pela legislação brasileira, o abate de aeronaves não depende mais da autorização direta do Presidente da República; o próprio Comandante da Aeronáutica tem o poder de autorizar a medida em determinados protocolos.
O que diz a FAB
Em nota enviada à coluna, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE), informou que a aeronave foi interceptada para averiguação de dados de voo e que após a verificação a aeronave seguiu no seu voo. A FAB também esclarece que todas as aeronaves em voo no espaço aéreo brasileiro estão suscetíveis às Medidas de Policiamento do Espaço Aéreo (MPEA).

