
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Estreou, em todo o Brasil, nesta quinta-feira (9), o filme "A Conspiração Condor" (Pandora Filmes), longa dirigido pelo gaúcho André Sturm, que investiga os bastidores das mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart, além das relação dos dois políticos com Carlos Lacerda e a chamada Frente Ampla.
Na trama de suspense político, ambientada na década de 1970, durante o regime militar, uma jornalista investiga a morte dos dois ex-presidentes, ocorridas no mesmo ano, em circunstâncias suspeitas. A coluna conversou com o diretor da obra.
A seguir, os principais trechos.
Como surgiu a ideia do filme?
Surgiu em 2017 ou 2016, quando li uma matéria de jornal que falava do Carlos Lacerda e da sua morte. Chamou a atenção que ele teve uma morte também estranha: uma febre alta, foi para o hospital e, duas horas depois, tinha morrido. E eu me dei conta de que Lacerda tinha morrido quatro meses depois de Jango, que morreu quatro meses depois do JK. Ou seja, três dos principais líderes do Brasil morreram com nove meses de diferença em situações estranhas. Eu achei que tinha um filme, que era incrível que essa história não tivesse sido contada e que, claramente, sinalizava uma conspiração.
Como que você classifica o filme? É um drama? É um thriller político? Qual o gênero?
Um thriller político, com certeza. Inclusive, eu quis filmá-lo como um thriller político dos anos 1970. Toda a opção do visual, da cor... Usamos zoom, a câmera na mão, não tem grua, não tem steadicam (sistema de estabilização de câmera), a cor é sempre contrastada, porque gosto muito daqueles filmes, acho que são importantes quando esse tipo de tema começou a ser tratado, tanto no cinema americano quanto no francês. Então, eu quis fazer um thriller, um filme que eu prendesse a atenção das pessoas pela narrativa, para que elas saíssem do cinema pensando no assunto.
Como foi a construção do roteiro? Teve uma pesquisa?
Eu escrevi a história e precisava de um roteirista. Eu trabalhei com um, dois, não deu certo, e decidi que queria achar um escritor. Eu fui à Feira da USP, aqui em São Paulo, e achei uma editora que tinha livros policiais de escritores brasileiros. Enquanto estava olhando, um homem me falou: "Olha, esse escritor aqui é muito bom. Compra o livro dele". Era o Victor Bonini, e o livro era muito bom. Achei o Victor, conversei com ele. Ele mora nos Estados Unidos, mas tinha muita vontade de estar envolvido com cinema e começamos a trabalhar juntos. Victor desenvolveu o roteiro, e fizemos muita pesquisa, porque eu queria que todo fato histórico fosse verdadeiro. Então, tudo que tem no filme que fosse real é real... Silvana (personagem principal) inventamos, mas tem pequenos detalhes. Tem uma hora que a Marcela (outra personagem) fala sobre a investigação de uma receita de bolo. Isso é fato, né? Em O Estado de São Paulo, quando tinha um artigo censurado, colocava-se uma receita de bolo, tem um sensor na redação. Todos esses detalhes que fomos colocando no filme são verdadeiros. Pesquisamos, falamos com jornalistas, pesquisamos os dados, para que tudo que estivesse no filme fosse verdadeiro. Uma das ideias também era isso: que o filme parecesse quase um documentário.
A história é verdadeira. Carlos Lacerda é verdadeiro, Jango, Maria Thereza, Juscelino, mas os outros são personagens criados para contar a história.
Sim, eles são criados. Mas o censor é inspirado. Existiam censores nas principais redações. Tentamos ter o maior número possível de elementos verdadeiros e criar personagens que fossem verossímeis. Ou seja, ninguém sabe o que Carlos Lacerda disse, mas poderia ter dito isso. Então, tentamos fazer o mais verossímil possível. Eu tentei fazer um filme que fosse, como eu falei, quase que um documentário thriller político. Para deixar as pessoas realmente na dúvida.
E quanto tempo de produção, como foi esse processo?
Eu comecei a pensar a história lá em 2017, mas realmente eu comecei a trabalhar no projeto em 2019. Eu dediquei um período da minha vida a cargos públicos, em 2019 eu saí, e aí comecei a me dedicar mais a sério (ao projeto). Poderia dizer que o projeto começou em 2019, em julho. Filmamos em novembro, dezembro de 2024, e já estamos com o filme pronto. Então, entre a filmagem e a finalização, até que, relativamente, não foi tanto tempo. Conseguimos ganhar um edital em 2023, que permitiu justamente começar a produção em 2024 e tentamos finalizar o filme logo para poder lançá-lo. Com toda sinceridade, eu não pensei nisso, mas faz 50 anos que aconteceram esses fatos. Então, acho que são os anjos aí dando uma força.
No ano passado, tivemos o filme Ainda Estou Aqui ganhando o Oscar. Neste ano, O Agente Secreto concorrendo. Os dois falam de História. Agora, o seu filme também trata sobre o tema. O cinema brasileiro está dando mais atenção a pautas sobre a história ou sempre deu e não dávamos a devida atenção?
O cinema brasileiro sempre teve filmes que falam da História. O que acho é que tivemos dois filmes muito bons e que conseguiram muita repercussão, o que é maravilhoso. O que acho uma coincidência é o fato de que os três filmes se passam entre 1974 e 1976, e isso realmente é muito curioso. Poderia ser um filme sobre 1964, (mas) os três se passam em um período de tempo muito próximo. São três filmes que falam de assuntos que se passam na ditadura, mas ela não é o personagem principal. Claro que tem um efeito na vida dos personagens. Ainda Estou Aqui é quase um melodrama. O Agente Secreto é um filme mais violento, mais explícito, e o meu é um thriller político. Então, também acho bacana que são três filmes que falam do mesmo período, mas de uma maneira em que não é o tema principal.
Qual a sua opinião sobre a importância de estar debatendo esse assunto em um ano de eleição?
Acho que precisamos. Eu gosto muito de História e acho que precisamos olhar a História, lembrar da História. Primeiro para não repetir os erros, acho que é muito importante estarmos sempre atentos a isso. O segundo ponto, o filme fala de um episódio histórico que ninguém mais lembra, que foi a Frente Ampla, que eu fiz questão de resgatar. É um exemplo do que mais faz falta nos dias de hoje, ou seja, três adversários, sem ídolos, e percebendo a necessidade de uma luta maior, se unem. Não é que eles viraram amigos, mas eles se se unem para a volta da democracia. Hoje, isso não existe. Hoje, se você torce para o Grêmio e eu torço para o Inter, a gente se odeia. Não é porque você torce para o Grêmio e eu torço para o Inter, ou vice-versa, que eu preciso te odiar. Você é meu adversário. Vamos ao estádio, eu tiro sarro de você, você tira o de mim, e vamos ver juntos. Infelizmente, a nossa vida, por causa da política, vai para o social, para a convivência, essa divisão, esse ódio. Em 2018, perdemos a possibilidade e deixamos isso a radicalização ficar pior. A Frente Ampla é algo que devia ser ensinado nas escolas, nas faculdades, e as pessoas terem isso claro: a grandeza de você entender que, em alguns momentos, o seu adversário pode ser seu aliado, não seu amigo.
Na hora em que a personagem Suzana aparece "suicidada", acaba sendo também uma quebra daquela história, porque ela estava investigando e a trama é cortada, ou seja novamente se abafa a investigação. Foi algo pensado em "cortar a história"?
É isso. Esse é outro tema do filme, como a própria imprensa, muitas vezes, se prestava a manipular a opinião. Você vê que a matéria do jornal (sobre a morte da personagem) diz: "Que pena, ela estava deprimida e cometeu esse ato, e eu também quis deixar, por mais que, na minha cabeça, tenha pensado: "quem foi que fez isso", eu também quis deixar claro que não é um assassino psicopata, é algo maior e que, na hora que ela chega perto demais, precisa liquidar, precisa dizer que ela se matou, porque não pode se falar disso. Com certeza, esse é um dos temas centrais do filme, como existem forças... Tem uma outra cena que é importante, uma parte do filme que algumas pessoas diziam que não precisava estar, e que hoje eu fico feliz: o experimento psicológico. Para mim, era fundamental, porque ali está a essência da coisa. Como as pessoas se submetem a fazer coisas horríveis, se disserem para elas que está certo e uma autoridade legitimar. No fim das contas, é a morte da Silvana. Não é um assassino serial, não é um psicopata. A Marcela trai ela, o Newton fica na dúvida, o Juan não temos clareza, o editor corta a matéria e dá aquela bronca nela com o sensor do lado. Ele é um editor, com certeza teria publicado orgulhoso, mas ele precisa fazer (censurar). Claro, não é todo mundo que tem a mesma vileza como a gente, infelizmente muitas pessoas se submetem a isso.
Na sua opinião, qual o grande clímax do filme?
Ah, é difícil, né? Porque foi realmente muita coisa. Eu acho que um turning point no filme é a cena do hospital. Dali em diante, a Silvana cruzou o Rubicão. Até ali, ela estava meio meio assim, tateando. Eu sinto, vendo o filme, e vejo pela reação das pessoas, que o filme realmente ganha uma tensão. Não tem mais volta. Ela está mordida por uma quase obsessão pela verdade, que vai levar para onde ela vai chegar. Então, acho que é uma cena fundamental.
Como você faria um convite para as pessoas assistirem?
Eu quis fazer um filme que falasse da história do Brasil relativamente recente, de fatos muito importantes que são pouco conhecidos, de uma maneira divertida. O filme é um thriller, mesmo que você seja apolítico ou de qualquer posição política, eu acho que você vai se divertir durante duas horas com um thriller que tem uma trama bem amarrada, personagens dúbios e, depois do filme, se você estiver acompanhado, vai ter assunto para o jantar ou para o almoço ou para o café.




