
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Há 23 anos, o Canadá conta com a Canadian Queer Chamber of Commerce (CQCC) — em português, Câmara de Comércio Queer do Canadá.
Trata-se de uma organização que defende os interesses da comunidade empresarial 2SLGBTQIA+ (sigla que inclui "Dois-Espíritos", termo das nações indígenas canadenses para pessoas que carregam os espíritos masculino e feminino, além de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexo e demais dissidências).
O grupo, que conta com centenas de empresas certificadas, foi representado por sete delas em Porto Alegre durante o South Summit, no final de março.
A coluna conversou com Cass Elliott, gerente global da entidade.
O que é a Câmara e qual o seu objetivo?
É a principal câmara de comércio voltada à diversidade no Canadá. Existimos para conectar empreendedores LGBTQIA+ a mercados, capital e mentores. No Canadá, há cerca de 100 mil negócios liderados por pessoas da comunidade, que geram anualmente 22 bilhões de dólares e criam 430 mil empregos. Apesar desses números, muitos enfrentam barreiras no acesso a oportunidades de compras corporativas e sistemas de financiamento que não foram projetados para eles. Criamos pontes para apoiar esses membros. Uma das formas é por meio de missões internacionais: a participação no South Summit é uma das seis missões que realizamos em apenas seis semanas.
Como a organização nasceu?
Foi há 23 anos, e crescemos muito nos últimos anos. No ano passado, o governo canadense destinou 25 milhões de dólares à CQCC para fortalecer o ecossistema LGBTQIA+. Repassamos parte desse recurso a parceiros regionais para ativar o trabalho local. Temos centenas de fornecedores certificados. É um sistema bastante universal para a diversidade de vendedores. Tentamos promover a ideia de que os parceiros corporativos deveriam priorizar e ver a vantagem de ter uma cadeia de vendedores diversa e diversidade naquela cadeia de vendedores. Quando você faz isso, você tem um acesso melhor a diferentes métodos de pensamento, diferentes inovações, diferentes fornecedores que são capazes de alcançar e ajustar as necessidades do seu negócio.
É uma organização nacional com sedes regionais?
No Canadá, somos uma organização nacional. Nosso time está em todo o país, em todas as províncias do Canadá. Também temos parceiros regionais que são membros de nós, e nós, em nível nacional, somos uma afiliada global de câmaras de comércio que apoiam o trabalho LGBTQ e a diversidade. Temos parceiros em Colômbia, Brasil, Reino Unido...
Por que criar um grupo exclusivo para o público Queer?
Nosso foco é a comunidade Queer, a comunidade LGBT, mas fazemos isso em parceria com outras câmaras de diversidade. Somos um dos fundadores de um grupo chamado Supplier Diversity Alliance Canada. Eles são focados em indígenas e mulheres, e nós estamos focados em LGBTs. A razão para isso é ter pessoas que estão representando a comunidade para ajudar a apoiar o acesso a essas oportunidades de procura. Ajudamos a tentar alinhar essa gama para conseguir parceiros corporativos que querem trabalhar com elas. A grande coisa, porém, é que a diversidade de produtores não é como um programa de caridade ou social. Esses são negócios legítimos que estão operando e fazendo bem, e nós não temos nada a ver com eles recebendo um acordo de alguém de outra comunidade. É apenas sobre obter o mesmo nível de acesso, então é um equalizador para que todos possam ser parte de um processo e encontrem oportunidades de crescimento. No Canadá, esse movimento foi apoiado, em grande parte, por parceiros corporativos que querem dirigir essa inclusão e ver isso nas suas cadeias de suprimentos. Mas as fundações originais dessa ideia de trabalho foram nos EUA, com os avanços por meio dos movimentos de direitos civis, onde o governo federal ajudou a apoiar empreendedores negros para ter oportunidades de procura dentro do governo. O que você vê no Brasil é uma parte disso também: são os parceiros corporativos que estão interessados em ver a vantagem de ter pessoas diferentes enviando seus serviços e produtos, e a comunidade também, para fazer as vantagens que veem com isso.
Como funciona a parceria com o governo canadense?
A CQCC trabalhou com o governo no Canadá para fazer avanços para os benefícios da diversidade de produtores, para ter certificação que garante que esse negócio é LGBT e que o dinheiro que você está tentando enviar para as comunidades é realmente para ir para essas comunidades, não para negócios falsos. Outra parte da parceria foi que o governo federal no Canadá deu (no último ano) para ajudar esse ecossistema a crescer. E isso está alinhado com o que também fizeram no Canadá para mulheres e para comunidades negras. E a terceira forma é que o Canadá tem um programa de trocas muito robusto e inclusivo. Dentro dos nossos escritórios, que estão em todo o mundo, eles realmente apoiam, como pilar principal, negócios de comércio inclusivo. Nossa participação aqui é um pouco de todos esses três espaços. Um, o impulso para que essas oportunidades existam para todos; dois, o financiamento federal que apoiou nosso próprio crescimento e expansão; e três, a prioridade de troca inclusiva na política globalmente.
Como o seu grupo encoraja outros países a seguirem esse modelo?
A rede global de câmaras de afiliados que mencionei são os parceiros que trabalham conosco e com nossos outros parceiros para tentar apoiar esse trabalho em um nível local e também em um nível internacional. A Câmara da Diversidade na Colômbia é um parceiro de muito tempo, eles ajudaram a planificar um programa para nossos delegados e então, enquanto estávamos lá, éramos capazes de compartilhar as melhores práticas: falar com o governo, com os parceiros corporativos, sobre o que estamos vendo, o que está funcionando, quais são alguns dos desafios para esses tipos de interações e que podem trabalhar sem ter que justificar por que estão na sala, para já serem capazes de estar lá. O nosso foco ainda é principalmente no Canadá, mas o país está em uma posição bastante única globalmente, em relação a direitos humanos. Alguns países ainda não têm uma câmara como a nossa e, se houver necessidade, esperamos que continuem a explorar isso. Mas há muitas pessoas em todos os lugares que querem fazer esse trabalho, tanto pela dignidade de que todos devem estar incluídos e terem acesso para apoiar as suas famílias, seu crescimento, seus negócios, ou de um nível de reconhecimento do valor estratégico. É um pouco de um mix de coisas. Sabemos que economias inclusivas são uma das formas mais sustentáveis e eficazes para promover os direitos humanos e para prevenir o deslizamento democrático. Quando olhamos para o mundo e para tudo o que está acontecendo, é mais importante do que em qualquer outro ponto.




