
Está cada vez mais difícil rotular políticos como de direita ou de esquerda. Não que as ideologias tenham desaparecido. A realidade é que ninguém mais veste um rótulo inteiro. Monta-se um cardápio.
Seria de se esperar de um partido de direita um programa liberal. De esquerda, uma agenda intervencionista. Não é mais assim. Quase nenhum político incorpora, de ponta a ponta, as características clássicas de um campo ideológico.
O que vemos é uma customização da ideologia para conquistar fatias específicas do eleitorado. O resultado é um Frankenstein político, costurado de retóricas e medidas que cabem nas campanhas, mas nem sempre em governos. É pura incoerência.
Tomemos Donald Trump: empresário, figura central da direita americana e do Partido Republicano, ele incorporou um estilo populista e nacionalista que parece destoar do liberalismo econômico clássico. Liberais defendem livre-comércio e abominam tarifas; Trump elevou tarifas, atacou acordos multilaterais e adota protecionismo quando lhe convém. A coerência ideológica esbarra no cálculo eleitoral e na aposta em setores ressentidos com a globalização.
No Brasil, Lula voltou a subir a rampa do Planalto com a aura da esquerda, mas montou um gabinete com nomes de perfis políticos diversos — incluindo figuras associadas à centro-direita — e um vice com histórico político distinto. Jair Bolsonaro, por sua vez, discursou como representante de um conservadorismo liberal em economia e forte lei e ordem, mas combinou esse leque com práticas e posições que destoam tanto do liberalismo quanto do conservadorismo puro. O que une esses exemplos é a prioridade dada à captação de votos e à manutenção de alianças, não a uma fidelidade doutrinária.
O mesmo vale para a propaganda: quer atrair os jovens? Vá para as redes sociais. O objetivo é os evangélicos? Mostre fé, batize-se ou adote símbolos religiosos. Os idosos? Grave imagens fazendo exercício, demonstre vitalidade. O setor produtivo? Discurse na Faria Lima em defesa do mercado.
É como se cada campanha fosse a um supermercado ideológico: o candidato pega um rótulo de cada prateleira — um pouco de liberalismo fiscal aqui, um tom intervencionista acolá, uma promessa social acolhedora — e monta uma embalagem vendável.
Essa flexibilidade eleitoral tem vantagens: amplia a base, permite alianças e reduz a rejeição de grupos que, em outro tempo, estariam fora da coalizão. Mas a incoerência empobrece o debate público, provoca confusão programática e lança uma nuvem de desconfiança sobre as candidaturas.





