
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Desde o dia 28 de fevereiro, marco do início da guerra no Oriente Médio, o Irã mantém o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde circulam cerca de 20% de todo o gás e petróleo do mundo. A ação afetou — e continua impactando — a cadeia econômica global, com o preço do barril de petróleo atingindo marcas históricas.
Agora, as atenções se voltam para outra rota comercial estratégica: o Estreito de Bab el-Mandeb. Situado entre o Chifre da África e a Península Arábica, o estreito separa os continentes asiático e africano, servindo como a ligação vital entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, através do Golfo de Áden. É, também, a via de acesso ao Canal de Suez, que conecta a região ao Mediterrâneo.
Com a escalada do conflito, um alto funcionário iraniano informou à agência Reuters que aliados de Teerã poderão fechar o estreito caso a tensão aumente.
Mas como o Irã poderia atuar em uma região geograficamente distante de seu território? A resposta está no Iêmen, que divide o controle do estreito com o Djibuti, na África.
O Iêmen é a base de operações de um dos principais proxies do Irã: os rebeldes houthis. O grupo manteve-se alinhado, por exemplo, a Teerã durante a "Guerra dos 12 Dias", em 2025, chegando a disparar mísseis contra Israel.
Conforme já detalhado pela coluna em conversa com o presidente do Instituto Sul-americano de Política e Estratégia (Isape), Fabrício Ávila, o Irã expandiu gradualmente seu arsenal e influência no Líbano, no Iraque e, principalmente, no Iêmen desde a Revolução de 1979. Ali, os houthis, integrantes do chamado "Eixo da Resistência", têm capacidade para intervir no fluxo marítimo.
— O problema é que o fechamento do Estreito de Ormuz é grave para o fluxo energético para a Eurásia, mas Bab El Mandeb é vital porque a Europa depende do mar Vermelho. Em princípio, realmente os países europeus teriam que reagir — afirmou Ávila à coluna.
A importância de Bab el-Mandeb
Pelo local transita a maior parte das exportações de energia do Golfo Pérsico destinadas à Europa e aos Estados Unidos. No seu ponto mais estreito, a passagem possui apenas 30 quilômetros de largura.
Estima-se que entre 10% e 12% de todo o comércio marítimo global passe por ali, totalizando cerca de 20 mil navios por ano — o equivalente a um quinto do comércio mundial. Desde o bloqueio de Ormuz pelo Irã, o estreito tornou-se a única via para a Arábia Saudita exportar seu petróleo.
O fluxo diário abrange petroleiros, gaseiros e porta-contêineres. No segmento energético, o corredor é responsável pelo transporte de aproximadamente 8,8 milhões de barris de petróleo por dia.
Uma eventual interrupção forçaria as embarcações a contornarem todo o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança, o que elevaria os custos e o tempo de transporte global.
Uma curiosidade: o nome Bab al-Mandeb significa, em árabe, “Portão das Lágrimas”. Trata-se uma referência histórica aos perigos da navegação na região, que tem em seu histórico naufrágios e dificuldades durante a travessia no local.

