
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, alerta que o debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1, na forma como está posto, se tornou bandeira eleitoral — enquanto deveria ser feito com "serenidade e profundidade" e não às vésperas de um disputa presidencial.
Em entrevista exclusiva à coluna, Skaf, que esteve em Porto Alegre para o evento INDX, na Fiergs, falou também sobre o cenário pré-eleitoral, a guerra tarifária e o acordo Mercosul-União Europeia.
A seguir, os principais trechos.
Na sua avaliação, o Brasil está preparado para o debate sobre o fim do regime 6x1?
Tem de ser discutido bastante setorialmente porque a realidade é que 6x1 é escala de trabalho, e, quando você fala em 44 horas, 40 horas, estamos falando de jornada de trabalho. É preciso separar as coisas. No caso da escala de trabalho, vai muito em função do setor. Há os que necessitam de um trabalho mais ininterrupto. A realidade da indústria é diferente do comércio, que é diferente da saúde, da área agrícola. O pecuarista de corte é diferente do pecuarista de leite. Então, essa é uma discussão que pode ser feita, não há dúvidas. Não sou contra nada disso. Temos de estar sempre abertos a discutir os temas, principalmente os que são de interesse das pessoas. Agora, não na véspera de uma eleição, no calor eleitoral, com motivação eleitoral, e sem debate nenhum. Ninguém é ouvido, ninguém debate nada, e tem de se aprovar rápido para servir como bandeira eleitoral para o presidente da República e candidato à reeleição. Sou contra isso. A discussão deve ser feita com serenidade e profundidade. Não sou contra nada, mas esses temas devem ser bem discutidos, assim como a jornada de trabalho: a Constituição Federal prevê até 44 horas. A realidade média brasileira é de 38 horas. Se mais da metade trabalha menos de 40 horas semanais, então, para que mudar isso da Constituição? Temos 44 milhões de pessoas que trabalham na informalidade ou de bicos, que não têm carteira assinada. Ao invés de a gente se preocupar em formalizar essas 44 milhões de pessoas, vamos criar embaraços e engessamentos para 45 milhões legalizadas. Isso é um convite a migrarem para a informalidade.
Em outros locais do mundo que acabaram com 6x1 isso ocorreu?
No Chile. Quando se mexeu em jornada, em escala de trabalho, aconteceu o aumento da informalidade e do desemprego. Porque, como a lei não permite que se faça da forma que convenha às partes (empregados e empregadores), acaba-se fazendo de forma informal. Não estou dizendo que sou a favor ou contra, estou falando que, em véspera de eleição e motivado por questões eleitorais, não deve ser feito nada que possa prejudicar as pessoas, o emprego e o país.
Uma reclamação recorrente na indústria é a falta de mão de obra. Como o senhor avalia esse ponto?
Não é um problema de mão de obra qualificada. O problema é que muita gente, com muitos programas sociais, não pode trabalhar na formalidade. Então, existe uma oferta de bicos. Você oferece um trabalho formal, registrado, e o empregado, muitas vezes, tem de abrir mão de algum benefício social, alguma coisa que está recebendo, e ele não quer fazer isso. Então, quer fazer bico. Hoje, 44 milhões de pessoas estão na informalidade, nos bicos. Quando uma empresa organizada, formal, busca mão de obra, muitas vezes não encontra mão de obra. Você forma mão de obra para construção civil, mas, a cada cem que forma, menos de 10 acabam trabalhando na construção civil. Os outros vão fazer o quê? Vão fazer bico, vão atender na sua casa quando você pedir: um pedreiro, um carpinteiro, um pintor. Por isso digo que o problema não são os 45 milhões de empregos formais. Devemos ter como foco os 44 milhões na informalidade. Na hora que você cria dificuldades e mais regras, engessamento no trabalho formal, isso te convida a aumentar a informalidade.
Mas é uma medida que encontra apelo popular.
Quando Lula propõe isso, ele não está pensando nas pessoas, no Brasil, ele não está vendo o custo, a competitividade. Está tirando a liberdade das pessoas se entenderem, das partes se entenderem. O moderno é ter a liberdade no entendimento da negociação. Ele está vendo uma bandeira que fala: "Você vai trabalhar menos e ganhar a mesma coisa". Como se não tivesse custo. Você chama mais gente para o churrasco e com a mesma quantidade de carne e acha que não tem nenhum custo, não tem nenhuma diferença? Não é assim. Precisa ser melhor debatido quais são os custos disso, as características, as particularidades de cada setor. Talvez alguns permitam essa mudança, em outros o custo-benefício seria muito alto. Não valeria a pena. Essa discussão não está sendo feita. Estão querendo meter goela abaixo do país mudanças em coisas que são muito sérias. É quase uma irresponsabilidade fazer a coisa assim, de supetão, só porque politicamente pode agradar.
O Brasil caminha para mais uma eleição polarizada, sem terceira via. Como o senhor analisa o cenário pré-eleitoral?
A minha sensação é como a sua. Também sinto que, pelo menos nessa eleição ainda, será muito difícil ter terceira via. Vai ter uma polarização, sim. É muito bom para o lado liberal, para a direita, ter quatro bons nomes. Mas a minha impressão é que essa eleição ainda não tem espaço para a terceira via. Desses, Flávio Bolsonaro está mais ou menos consolidado. É um Bolsonaro mais jovem, um Bolsonaro que toma vacina, que não fala palavrão, equilibrado no comportamento.
E os impactos no Brasil da guerra no Oriente Médio?
Naturalmente, ninguém comemora uma guerra, que é uma coisa sempre ruim, pessoas perdem a vida, se machucam. Mas não podemos fazer nada, não temos nenhuma influência. É uma guerra que não é nossa. A nossa influência tem duas mãos: uma é a preocupação com a importação do diesel, porque dependemos em 30% do diesel importado. Em março, caiu 20% a importação. E motivado por quê? Porque o governo fica com essa ameaça. De um lado, ele incentiva a amenizar o aumento de custo, o que é positivo. De outro lado, fica naquele tom de ameaça, assustando aqueles importadores. Não é hora de assustar os importadores. É de estimulá-los a importar o diesel para que realmente não haja escassez. Porque, se houver, além do descontrole de preços, você terá a falta. E a falta faz parar as atividades. Na outra mão, como o Brasil é exportador de petróleo. E, com um barril a US$ 100, a Petrobras pode exportar US$ 20 bilhões a mais, o que é positivo. O que a gente pode fazer é realmente torcer para que a situação lá não se agrave, que termine essa guerra o mais rápido possível.
A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump ainda preocupa?
Quem reduziu as tarifas de 50% para 10% foi a Suprema Corte americana. Muita gente do governo fala que baixaram as tarifas para 10%. Há um convencimento de que tiveram alguma coisa a ver com isso. Há sempre uma ameaça. Existe uma Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que é um processo que estamos sendo investigados pelos Estados Unidos. São duas fases: uma ligada à prática de pirataria, de trabalho escravo, de queima de floresta. Não estou dizendo que o Brasil faça nada disso. Estou dizendo que os americanos tem em fase de investigação. Há 60 países sendo investigados. E uma segunda fase de relações de trabalho: se o Brasil comprar produtos de algum país que seja condenado pelos Estados Unidos que tenha trabalho escravo ou alguma coisa do gênero, o país seria penalizado. Então são duas faces e duas investigações, isso pode dar uma taxação, que pode ser de 5%, 10% ou 50%. Diria o seguinte: reduziram agora (as tarifas) graças à Suprema Corte Americana. Estamos seguros? Não, não estamos. Por quê? Porque estamos com duas essas investigações na sessão 301. Ainda se tem um punhal na garganta, não está liberado 100%.
E em relação ao acordo Mercosul-União Europeia, o senhor está confiante?
Você sabe que essas negociações do Mercosul com a União Europeia tem muitos anos, diria décadas, e, finalmente, saíram. É do interesse de todos. Vai ser enterrado um trabalho de décadas e que foi concluído? Acho muito difícil. Enterrado não será. Acho que o acordo vai entrar em vigor em 1º de maio, e aí meio que sacramenta. Há um cronograma que chega a 16 anos para alguns setores mais sensíveis. Então não traz ameaça a alguns setores, nem do lado francês nem do lado brasileiro. Você está juntando aí um PIB de US$ 22 trilhões, que é o PIB geral da União Europeia, com o PIB do Mercosul, um mercado de 720 milhões de pessoas. É uma coisa interessante, sem dúvida, é um grande mercado, é uma grande força econômica, e abre oportunidades. Temos que buscar as oportunidades, não só de troca, de comércio, mas de investimentos recíprocos. Recebi o embaixador da França, e estávamos conversando sobre isso: a necessidade de promovermos as vantagens de investir no Brasil e na França para atrairmos investimentos.


