
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Com 878 mil inscritos no YouTube e 300 mil seguidores no Instagram, um dos destaques do Fórum da Liberdade, que ocorreu em Porto Alegre, nos dias 9 e 10 de abril, foi Ysani Kalapalo.
Ela é influenciadora digital e ativista indígena do povo Kalapalo (Xingu), conhecida por seu conteúdo sobre a cultura local e por opiniões políticas fortemente alinhadas a posicionamentos de direita.
Durante sua passagem por Porto Alegre, ela conversou com a coluna:
Você se denomina nas redes sociais como "indígena do século 21". O que isso significa?
Indígena do século 21 é exatamente a indígena que quebrou barreiras. Quebrou paradigmas do pensamento dito "tradicional" sobre o indígena. O que seria esse pensamento? Dentro da minha cultura, seria o indígena a favor de estupro coletivo, de infanticídio... Isso eu não sou mais. Isso é o pensamento tradicional da cultura indígena. Por que eu sou do século 21? Porque luto contra tudo isso. E conseguimos transformar isso em lei, junto a ativistas e parlamentares de direita. Hoje, o infanticídio não é mais permitido no Brasil. Existe a Lei Muwaji, graças a pessoas que lutaram para mudar essa realidade. O indígena do século 21 quer empreender, produzir, estudar fora e conhecer a cultura de vocês. O indígena é um ser humano. E o que o ser humano quer? Facilidades, coisas boas. E assim caminha de geração em geração.
O que, na sua visão, falta para aproximar o indígena do empreendedorismo e dessas pautas que você citou?
Por exemplo, os indígenas que querem empreender estão saindo de suas aldeias para fazer isso na cidade, porque, dentro da aldeia, não podem, o governo não permite. Quando ele começa a empreender, automaticamente deixa de ser considerado indígena por alguns, pois dizem que "indígena é aquele que vive na aldeia". Mas por que o indígena não pode colaborar com o progresso do país? É um ser humano também, por que tem que viver limitado? Queremos, hoje, políticas públicas que deem mais liberdade e autonomia para o povo indígena. É isso que os "indígenas do século 21" defendemos.
Hoje, a maioria das pautas voltadas à causa indígena está ligada a partidos de esquerda. Você vê uma penetração dessas pautas em partidos de direita?
Sabe por que os partidos de esquerda querem que o indígena permaneça dentro das aldeias? Porque fica muito mais fácil manipular. O indígena que conhece o mundo moderno vira um inimigo para eles. A esquerda adentra as aldeias e começa a formar "líderes indígenas" junto com ONGs para defender a pauta deles, não a pauta do indígena. Por isso, a esquerda está tão atrelada a líderes como Raoni (Metuktire). Raoni não defende a questão indígena, ele defende o que é bom para ele. Essas pautas que a esquerda defende condizem o que vivem. Tanto que, quem fala diferente, começam a perseguir. E eu sou uma das perseguidas. Na nossa aldeia, não deixamos as ONGs entrarem. Meu cacique, que é meu irmão mais velho, e eu somos lideranças e não permitimos essa lavagem cerebral, pedindo voto para Lula. Onde o Lula é bom para nós? Sabe o que o povo do Lula fala sobre o infanticídio? "É a cultura deles, deixa para lá". Eles nunca se importaram de fato com a nossa causa, com a vida das crianças ou das mulheres. Hoje, indígenas continuam passando necessidade e desnutrição, mas a mídia do Lula não mostra mais, para não envergonhar o governo atual.
Quando você diz que é perseguida e que há lavagem cerebral, refere-se às ONGs da causa indígena ou aos partidos de esquerda?
Existem ONGs que fazem essa lavagem. Eles escrevem discursos para você repetir o que defendem: que o indígena não pode estudar, não pode evoluir, não pode produzir em sua terra nem empreender. Levam indígenas para palestras no Exterior para dizer que essa é a vontade do povo, mas não é verdade. A grande maioria quer evoluir e viver bem. Hoje, uma das bandeiras da minha aldeia é ter banheiro. Não temos. Queremos banheiros porque, ao fazer as necessidades no mato, corremos o risco de ataque de onça. As ONGs não pensam nisso. Outra bandeira é a energia elétrica convencional. Não temos licença ambiental.
Em 2020, você participou de um evento com o ex-presidente Jair Bolsonaro na ONU, mas depois disse ter se decepcionado. Agora, você declarou apoio ao Flávio Bolsonaro. O que mudou?
Sobre Flávio, eu tinha uma certa resistência no início, queria que o candidato fosse Tarcísio (de Freitas, governador de São Paulo). Mas Flávio foi o escolhido. Sobre o passado, tive uma desavença com o então presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), Marcelo Xavier, indicado por Bolsonaro, pois ele não cuidava dos assuntos indígenas como deveria. Isso gerou um afastamento. Mas vejo Flávio como alguém mais flexível, que ouve as anotações e, por ser jovem, é mais aberto ao diálogo. Ele entende a autonomia e a liberdade do povo indígena. Existem muitos indígenas de direita, mas a mídia não mostra porque é mais conveniente dizer que somos todos de esquerda. Culturalmente, os princípios de direita se assemelham mais à cultura indígena. Muitos preferem Flávio a Lula porque já cansamos de promessas que não resolvem nada. O Ministério dos Povos Indígenas que foi criado não faz nada em prol do povo; parece servir apenas para dar emprego à Sônia Guajajara e pagar as viagens dela. Não queremos mais isso.





