
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Pedro Urruchurtu, diretor de Relações Internacionais do Vente Venezuela — partido fundado e liderado por María Corina Machado —, esteve em Porto Alegre nesta sexta-feira (10) para participar do Fórum da Liberdade, na PUC-RS.
Ele, que é considerado por alguns como "braço direito" de María Corina, conversou, com exclusividade, com a coluna, em uma entrevista na qual abordou a situação atual da Venezuela, o regime de Nicolás Maduro e as intenções do governo brasileiro em relação ao processo eleitoral venezuelano.
Como está a Venezuela hoje? Nicolás Maduro caiu, mas a estrutura do regime permanece. Como você classificaria a Venezuela atualmente? Segue sendo uma ditadura?
Obviamente, o regime criminoso segue no poder, a estrutura segue. É uma estrutura que, depois do 3 de Janeiro (data da prisão de Nicolás Maduro), se viu seriamente afetada, e por isso que o 3 de Janeiro foi tão importante. O que aconteceu em janeiro, com a extração de Nicolás Maduro, que era o líder de uma organização criminal chamada Cartel de los Soles, evidentemente mudou o jogo dentro da Venezuela. Certamente, desde aquele momento, Estados Unidos foram pressionando o regime ou o que resta do regime a tomar decisões e ações que, a curto e médio prazos, significam seu próprio desmantelamento. Então, na verdade, sim, segue a mesma estrutura no poder, mas é ela está pressionada e debilitada como nunca. O aparato repressivo segue no poder, mas não tem a mesma capacidade que antes do dia 3 de Janeiro. Agora enfrenta o dilema de sobreviver politicamente, ideologicamente ou de ceder ante uma transição. Estamos frente a uma grande oportunidade: obviamente, agora, depende de como pressionamos efetivamente para que haja uma transição e eleições. Por isso, é tão importante a liderança de Maria Corina Machado, que nos inspira. Agora, fica claríssimo que nada disso estaria acontecendo sem o dia 3 de janeiro. Por isso, é tão importante o que a administração do presidente (Donald) Trump decidiu fazer no dia 3 de janeiro. Isso tem permitido que tenhamos essa oportunidade.
Qual é a sua avaliação desse breve período com o Delcy Rodríguez no governo?
Insisto em lembrar que ela continua sendo parte da estrutura criminosa. Não somente isso, mas ela foi arquiteta, parte do desenho institucional do regime, do aparato repressivo de tortura. Portanto, acreditar que Delcy Rodríguez é uma reformista ou uma moderada, obviamente, é desconhecer sua natureza e o que ela fez. Mas esse foi um período em que claramente o regime se viu pressionado a tomar decisões que, provavelmente, não queria, mas que aponta para o seu próprio desmantelamento. A liberdade dos presos políticos, embora ainda haja muitos, o fato de que deixaram de perseguir pessoas, pelo menos publicamente, o fato de tiveram de fazer mudanças no gabinete, implica, de alguma maneira, o reconhecimento de que a pressão dos Estados Unidos está tendo efeito. Sem essa pressão não seria possível. Estamos vendo um regime ferido, muito afetado, muito debilitado, que está respondendo à pressão dos Estados Unidos e que não tem opção. Então, é um regime que está entre a espada e a parede nesse sentido, mas que, evidentemente, está tomando decisões, por um lado para sobreviver, e, por outro, para facilitar e cooperar em uma transição que EUA sabe que precisa ocorrer. Não é possível falar de uma transição em longo prazo na Venezuela, nem de uma estabilidade democrática, se não há democracia, se não há eleição, se não há governo legítimo. E nenhum país vai investir seriamente na Venezuela se não há Estado de Direito. O Estado de Direito só garantiria um novo governo, não o que temos tido até agora, que obviamente tem destruído o Estado de Direito.
Maria Corina Machado será candidata nas próximas eleições. Você participará do processo?
Em primeiro lugar, tem a ver com desmantelar o aparato repressivo e que cesse a perseguição política. Isso significa, obviamente, que todos os direitos políticos e civis dos venezuelanos estão garantidos, tanto dos que querem escolher, que também se veem desrespeitados ao não poderem fazê-lo com liberdade, como daqueles que querem ser candidatos. Obviamente, a maioria dos venezuelanos quer ver Maria Corina Machado como candidata e quer votar nela. Para chegarmos a esse ponto, a chave desse processo é justamente que a repressão acabe, porque não pode haver transição com repressão. E, em segundo lugar, que Maria Corina possa voltar à Venezuela o mais rapidamente possível, como é sua aspiração e como vai ser, mas também com seus direitos garantidos. Ou seja, que possa voltar a sair de Venezuela, entrar e sair com liberdade, ter um passaporte válido, que possa percorrer a Venezuela sem ser perseguida, e obviamente que possa ser candidata. Mas não só ela, que qualquer candidato possa fazer isso sem ser perseguido por pensar de forma diferente do regime.
Em um primeiro momento, Trump não elegeu Maria Corina nem a oposição para o processo de transição e optou por Delcy Rodríguez. Como analisa essa articulação?
É uma estratégia que, obviamente, busca o próprio desmantelamento do sistema. É uma aposta para que eles mesmos, de dentro, cooperem para uma transição. Evidentemente, é um enfoque complexo e que, além disso, tem um componente de risco. Esses regimes são especialistas em ganhar tempo. São aprendizes, por exemplo, do regime castrista cubano. Isso, muito provavelmente, é o que estão buscando: ganhar tempo para ficar no poder. Por isso, é tão importante entender que a pressão tem de continuar para que, em efeito, esse enfoque que derivou que o próprio regime se desmantele a si mesmo desde dentro, realmente se desmantele. Esse é o desafio que temos pela frente. E por isso é tão importante que essa pressão seja efetiva na direção correta. Mas, insisto: a realidade é o que é, e, por isso, que temos de avançar. Entender essa realidade, em que ocorram as mudanças que precisam ocorrer, para que os venezuelanos possam escolher outra vez a liberdade.
Você considera que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela pode abrir precedente para ações em outros países da América Latina?
Não ter atuado na Venezuela teria criado um precedente muito perigoso para a continuidade de um regime criminoso para todo o hemisfério. O que aconteceu no dia 3 de janeiro por parte dos Estados Unidos para Nicolás Maduro é consequência do próprio comportamento do regime. O regime teve todas as oportunidades para sair do poder de maneiras diferentes, negociadas, com garantias. Todas foram negadas. Por isso, é um regime que decidiu se sustentar pela força e por isso só a força foi capaz de removê-lo. Obviamente, esses regimes que operam como grupos criminosos têm de entender que há ameaças verdadeiras que, sim, são executadas, como a que ocorreu no dia 3 de janeiro. Ou seja, são ameaças que são capazes de ser aplicadas. Por isso é importante o precedente: entender que, aqui, qualquer elemento que represente uma ameaça à democracia, à segurança do hemisfério e que se mantenha pela força, não pode ser tolerado.
Quando você acha que a Venezuela viverá novamente uma democracia?
Dentro dos tempos da comunidade internacional, que não necessariamente são urgentes. Surgem temas, surgem outras realidades. Outros contextos que também estão em situações muito complicadas, como o caso do Irã. Então, no final, temos que fazer valer o tema da Venezuela, mantê-lo na discussão e acelerar os tempos para que ocorra o quanto antes. Os venezuelanos querem que ocorra o quanto antes, portanto, essa é a nossa tarefa.
Se a oposição ganhar as eleições, o que aconteceria com os militares do regime? Ocorreria uma anistia?
O mais importante de qualquer componente de um novo governo sempre será a busca da Justiça. E, obviamente, todo aquele que tenha cometido delitos deverá ser julgado pelos mesmos. Evidentemente, em contexto de transição e de negociação, há certos elementos que hoje seriam especulativos, mas que, evidentemente, serão parte de discussões. O que fica claro é que a impunidade não pode ser uma regra. O que tem de ser a regra é justamente a Justiça. Isso é o primeiro. Depois, no caso dos militares, todo aquele que é militar, funcionário, que se põe ao lado da República e da democracia, evidentemente, terá lugar em um governo democrático, desde que respeite a democracia. Por isso, é tão importante avançar nesse sentido. E, evidentemente, no futuro político da Venezuela haverá diversidade de ideias, de pensamento, e não faremos o que o regime fez por 28 anos, perseguindo todos que pensam diferente. Mas isso não pode ser confundido com impunidade ou injustiça. Há justiça porque aqui há muitos responsáveis que foram parte da destruição da Venezuela e da dor que causaram aos venezuelanos.
O que pensa que vai ocorrer com Maduro em Nova York?
Bem, será julgado criminalmente ,e a Justiça determinará a magnitude da pena. O que fica claro é que está sendo julgado porque é um criminoso e há evidências e provas suficientes para confirmar isso.
Existe um ressentimento em relação ao governo brasileiro por não ter condenado Maduro em não ter apoiado a Maria Corina?
Creio que não. Eu não diria um ressentimento. Creio que tenha ocorrido um chamamento, que sempre tivemos feito: esperávamos mais do Brasil. O Brasil é um ator chave na região, uma referência democrática. Pensamos que poderia ter dito e feito mais a respeito aos venezuelanos e à Venezuela. Em muitos casos, a inação do Brasil deu mais tempo ao regime, e esse tempo permitiu que se garantisse, apesar de a eleição de 28 de julho de 2024 ter sido roubada. Por isso, acho que parte do problema de fundo aqui tem a ver com o papel que o Brasil pode jogar de agora em diante: sempre de apoio à legítima aspiração dos venezuelanos, que não é outra além de viver em democracia e liberdade. E isso é o que esperamos do Brasil, como de qualquer país do hemisfério. Que respalde os venezuelanos e que seu silêncio, sua inação, não termine ajudando as tiranias.
Você fala muito com Maria Corina?
Eu trabalho com ela todos os dias.
Como ela está?
Ela está bem, lutando, trabalhando, estamos trabalhando juntos e preparando o retorno.



