
Em 27 de outubro, dois dias após o segundo turno, o presidente Lula completará 81 anos. É exatamente a idade que Joe Biden tinha quando decidiu abandonar a corrida eleitoral, em julho de 2024.
A saída do então presidente americano ocorreu em meio a um debate intenso sobre etarismo — o preconceito baseado na idade. Após um desempenho considerado frágil em um debate contra Donald Trump, três anos mais novo, cresceram as dúvidas sobre sua condição física e cognitiva. A pressão interna no Partido Democrata tornou-se insustentável. O desfecho é conhecido: Kamala Harris assumiu a candidatura e acabou derrotada nas urnas.
O tema atravessou fronteiras. Em dezembro, a revista The Economist publicou um editorial duro, defendendo que Lula não deveria disputar a reeleição em 2026. Para a publicação, seria “arriscado demais” um novo mandato, sob o argumento de que candidatos acima de 80 anos carregam riscos elevados. Em um dos trechos mais incisivos, o texto afirma: “Carisma não é escudo contra declínio cognitivo”.
Diante desse cenário, Lula se mostra disposto a evitar o chamado “efeito Biden”. Uma das estratégias — sem garantia de eficácia — é investir na imagem de vitalidade. Fotos do presidente em atividades físicas, seja na musculação, jogando futebol ou corridinha nas rampas do Planalto, ao que parece, passaram a fazer parte da comunicação. O próprio Lula já disse não temer discriminação por idade.
Mas houve ruídos. Em janeiro, apoiadores extrapolaram ao divulgar uma imagem manipulada do presidente, com aparência “forte e musculosa”, caminhando pela praia. O episódio gerou desconforto interno. O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, tratou de estabelecer um limite: imagens, sim — mas reais. O governo e o PT devem enfatizar dois pilares: o vigor político e a experiência acumulada para enfrentar momentos de crise.
Outro ponto é a antecipação do debate. Uma estratégia é buscar esvaziar o impacto futuro da crítica. Em vez de reagir a ataques, enquadrar o assunto sob seus próprios termos: experiência como ativo, trajetória como legitimidade e capacidade política como diferencial. É uma tentativa de transformar uma potencial vulnerabilidade em argumento a fim de evitar que, mais adiante, a narrativa escape do controle e produza um efeito semelhante ao que levou à “bidenização” do debate eleitoral americano.






