
Presidente da Bolívia entre 2001 e 2002 e candidato que disputou o segundo turno das eleições presidenciais do ano passado — quando foi derrotado por Rodrigo Paz —, Jorge "Tuto" Quiroga afirma que há uma oportunidade histórica de derrotar ditaduras no continente.
Em sua avaliação, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela abriu um precedente para a queda de outros regimes autoritários, como em Cuba e na Nicarágua.
O político é um dos principais nomes do Fórum da Liberdade, que ocorre nesta quinta (9) e sexta-feira (10) na PUCRS, em Porto Alegre. Durante sua participação, Quiroga pretende analisar o atual momento da direita latino-americana e projetar os desafios geopolíticos na região.
Ele conversou com a coluna com exclusividade.
Qual mensagem será passada ao público no Fórum da Liberdade?
Que estamos às portas de uma oportunidade extraordinária na região. Para quem sempre defendeu a liberdade, sobretudo quando não estava na moda, talvez agora seja um pouco mais fácil. Mas lembro de quando reinava, aqui, o Foro de São Paulo, depois convertido em Grupo de Puebla, onde, inclusive, estava Nicolás Maduro e a ditadura venezuelana. O “socialismo do século 21”, chame como quiser, eu os chamo de “sócios prontos do século 21”, eram parceiros criminosos. Em 2008, chegaram a controlar 22 de 34 votos na OEA (Organização dos Estados Americanos). Dominavam o hemisfério. Hoje, estamos diante de uma oportunidade em relação aos três bastiões autoritários da América Latina: Cuba, Nicarágua e a Venezuela. São três tiranias trogloditas totalitárias, que têm sido defendidas por países do Grupo de Puebla. O Brasil é uma democracia, o México e a Colômbia também. Nos perguntamos por que acobertam e defendem essas três tiranias. Devido ao que está acontecendo no mundo, uma vez que Maduro está agora em Nova York, e porque em Cuba dependia-se do petróleo e da generosidade de Maduro e de Hugo Chávez, agora isso acaba. Há uma oportunidade histórica e, evidentemente, liderada pelo governo americano. Tomara que mais vozes na região se levantem nessa direção. Às vezes, o governo americano tem a tendência de dizer “é um ditador”, não “é uma ditadura”. “É um tirano”, não “é uma tirania”. Trocam o tirano e, às vezes, ficam satisfeitos. Aqueles que querem viver em democracia e liberdade têm de pressionar para que, na Venezuela, exista um processo democrático onde, em uma eleição, ganhe aquele que conquistar mais votos. Edmundo González conquistou 37 pontos a mais do que Maduro em 2024. Venezuela livre e democrática! Nicarágua também! E que "Cuba Livre" deixe de ser apenas o nome de uma bebida alcoólica em um bar à noite.
O senhor acredita que Cuba terá o mesmo destino da Venezuela, ou seja, será alvo de um ataque militar?
Não sei. Vamos ver: quem disser que sabe o que vai fazer o governo americano ou o presidente Donald Trump... Por definição, não creio que (Trump) esteja acertando, não tenho certeza de que o próprio presidente Trump tenha uma estratégia, como estamos vendo no Irã. O bombardeio às instalações nucleares do Irã do ano passado (foi) cirúrgico. Foram 12 dias (de guerra), deu certo. A extração de Maduro foi militarmente impecável. O Irã é diferente. Quando, nos EUA, se falava da Venezuela, sob o argumento de que ficasse Delcy Rodríguez, em vez de Maduro, seguia a lógica para que não ocorresse o que aconteceu no Iraque. Me parecia uma estupidez essa comparação. O Iraque é um país de dezenas de milhões de pessoas: xiitas, sunitas, curdos, separatismos. Saddam Hussein era um sunita que submetia os xiitas. Não era comparável com a Venezuela, onde não há clivagens regionais nem étnicas. O único grupo armado criminoso é o governo. E havia algo que, no Iraque ou no Irã, não há: uma oposição democrática com 67% de votos nas atas do governo. Agora escuto dizer que, no Irã, é necessário buscar uma Delcy Rodríguez. Tenho amigos na Europa que aplaudiam quando Clinton (Bill, ex-presidente americano) bombardeava a Bósnia. Ou que aplaudiam quando se dava todo o apoio militar a Volodimir Zelensky contra Vladimir Putin. Mas não o fazem quando se trata de Trump diante de um aiatolá, que é um criminoso, uma teocracia criminosa. É possível que Díaz-Canel (ditador de Cuba) dure menos que Delcy Rodríguez (no poder). Porque Delcy tem o governo americano como parceiro comercial de seu petróleo. Não há dúvida de que a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos possa fazer com que Trump precise de um empurrão. Ele pode precisar se reposicionar fortemente na Flórida. Isso pode acelerar o cronograma das ações em Cuba. Não entendo por que deixamos que este seja um tema dos gringos quando a Carta Democrática Interamericana foi assinada por todos os países do continente, Brasil incluído. Venezuela incluída. Chávez vivia e a assinou. Ela diz que, nessa região, para ser sócio deste Clube das Américas, não basta ter fronteira, contiguidade territorial, espaço marítimo compartilhado. Não. Temos de ser democracias. Eu, como presidente (da Bolívia), assinei a Carta Democrática. Então, exijo dos que assinaram comigo que a cumpram.
A Bolívia esteve perto de uma ditadura como a da Venezuela?
Na Bolívia, não chegamos aos níveis autoritários da Venezuela, da Nicarágua e de Cuba. Hoje, podemos dizer “já não estão (no poder) Evo Morales e o MAS (Movimento ao Socialismo)”. Temos a obrigação de que, na Venezuela, também possam dizer “já está (no poder) alguém que escolhemos”. Não Maduro nem seu sucessor ou alguém que os Estados Unidos coloquem no lugar. É isso que queremos na Venezuela, na Nicarágua e em Cuba.
Grupos criminosos brasileiros, como PCC e Comando Vermelho, atuam na Bolívia. Como o senhor avalia o desejo do governo Trump em declará-los terroristas? Pode ameaçar a soberania dos países latino-americanos?
O governo do Brasil terá de falar com o dos Estados Unidos, sobre como os qualificam. Aqui, não os quero (os grupos). Para mim, aqui são narcodestrutivos. Pisoteiam a democracia. Aqui, eles têm santuário. Evo Morales não apenas destruiu a economia, ou acabou com o gás, pulverizou a Justiça, nos encheu de corrupção, mas também fez algo que, no Brasil, é pouco conhecido. Doeu-me enormemente quando Evo era presidente e Lula foi ao Chapare. Colocaram nele a guirlanda com as folhas de coca (em seu pescoço). Pena, péssimo trabalho da chancelaria do Brasil, por não entender que a folha de coca milenar, tradicional, do “acullico”, dos chás, é a de Yungas. Eu sei que no Brasil não conhecem bem a Bolívia.
Estive em Yungas em 2007.
A coca de Yungas é a milenar, tradicional, do “acullico”, do mate de coca. A rainha da Espanha vinha e tomava o mate de coca. A do Chapare, não serve devido ao sabor e textura, para o “acullico”, para o chá. Tem um único fim. A ONU, ano após ano, publica uma relatório que diz que a coca da zona do Chapare só serve para o narcotráfico. Em março de 2017, na Bolívia, foi aprovada a lei 906. Somos o único país do mundo que legalizou a produção da matéria-prima cujo único fim é a cocaína. Legalizamos. Essa foi a carta de convite para que grupos narcodestrutivos viessem para meu país com poder de fogo imenso. PCC, Comando Vermelho passeiam pela Bolívia, têm casas aqui, matam gente... Entraram outro dia em Guayaramerín, deram 40 tiros em uma pessoa. Isso nós, bolivianos, não fazemos. Não os quero aqui. Como os denominam? Não me importa. O que é pior? O terrorista você combate. O narcodestrutivo vem, compra juízes e promotores, mata. Não é questão de rotular, mas de tirá-los da Bolívia. Se a Polícia Federal do Brasil não pode com eles, imagina a da Bolívia. E requeremos toda a cooperação para extirpá-los. Tudo o que os EUA fizerem para combater o narcotráfico ajuda. A cocaína que chega aos Estados Unidos é a da Colômbia, que passa pela Venezuela e vai por Honduras e Guatemala. A nossa, da Bolívia, do Peru, vai para o Brasil, para a Argentina e, de lá, para a Europa. Os gringos diziam: “Esse é problema dos brasileiros”. Não, é de todos. Este é um tema que precisa do esforço coeso, colaborativo de todos. Tudo o que os Estados Unidos quiserem fazer, eu estou de acordo. Aqui, Evo Morales dizia: “A DEA (agência antidrogas americana) fere a soberania”. Mentira, a DEA coopera. Quem fere a soberania são o PCC e o Comando Vermelho.
O senhor pertence à direita mais tradicional e há políticos, como Jair Bolsonaro e Javier Milei, que diferem dessa forma de fazer política. O senhor identifica essas diferenças?
Nunca acreditei nesses rótulos. Quem nos aplica são os europeus. Precisam de etiquetas: quem é de esquerda ou direita. Evo Morales não era de esquerda, Evo Morales e Maduro são criminosos, autoritários, antidemocráticos. A linha divisória hoje é quem quer democracia, liberdade, instituições independentes, imprensa livre, e quem está com um sistema autoritário, corrupto e criminoso. Geralmente, os que queremos uma economia aberta, de direita, não estamos juntos com esse sistema estatista comunista. Eu pergunto: Trump é de direita? Acredito no livre-comércio, na abertura econômica, no livre investimento. E você poderia rotular como de direita, um governo que pega uma porcentagem da Intel ou que pega uma tarifa extraordinária quando os chips da Nvidia são vendidos para a China ou que sobe as tarifas e as baixa como se tocasse acordeão? Eu creio em livre-comércio e em baixar tarifas. Alguém dirá: “Ah, você está com Trump.” O senhor Trump não crê nisso. Então, aí se misturam muitas coisas. Lula, Dilma Rousseff, Gustavo Petro, Gabriel Boric eram autoritários, matavam gente, fechavam canais? Não. Mas andavam com Chávez e Maduro, com os Ortega e com os cubanos. A linha divisória da região hoje é democracia, liberdade, instituições independentes, imprensa livre, alternância no poder. Na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua, os governantes ficam para sempre (no poder), fecham os meios de comunicação, prendem opositores, roubam tudo o que podem. A alternância, por definição, te torna menos corrupto. Não que garanta honestidade. Mas saber que algum dia terás de deixar o poder te torna mais cuidadoso. Mesmo na esquerda, há os que defendem Maduro e os que não. Também observamos que, no lado dos que se dizem à esquerda, há gente com quem posso estar em desacordo. Mas Boric se levantava e dizia que a Venezuela é uma ditadura. Meus respeitos. Ele não tem de pensar como eu na área econômica, no manejo do Estado, mas, sim, na parte democrática e institucional.
Boric era diferente de Lula, que recebeu Maduro com tapete vermelho em Brasília?
Claro que sim. O que eu reclamava é que, nos quatro irmãos maiores, havia contemporização com Venezuela, Cuba e Nicarágua. Havia contemporização por parte dos governos de Brasil, México e Colômbia. Na Argentina, enquanto estavam os K (Néstor e Cristina Kirchner), também havia. Entrou Javier Milei, e já não estão. Se os irmãos maiores não levantam a voz, é mais difícil para que Uruguai, El Salvador e Honduras possam dizê-lo. Quando Edmundo González ganhou (na Venezuela) com 37 pontos de diferença, em um país sem imprensa livre, os governos de Brasil e Colômbia, o que diziam? "Diálogo, um governo de unidade". Lula ganhou de Bolsonaro por diferença inferior a dois pontos, e ninguém pediu que fizesse um governo de unidade. Ele é o presidente, e todos o reconhecem. Por isso te digo: a linha divisória não é que Edmundo González era de direita e Maduro de esquerda. Um é democrata, que crê na liberdade, que quer combater os criminosos. Outro, Maduro, é um um criminoso autoritário, que prende gente, que mata jovens nas ruas. Sou de direita, liberdade econômica total. E, nos valores, sou liberal de verdade. Não quero impor meus valores. Sou católico, tenho quatro filhos. Se és ateu, te respeito. Não quero te obrigar a ser católico. Não quero te obrigar a compartilhares meus valores. Mas sou intolerante com os intolerantes. Tenho minhas ideias, as defendo, mas não demonizo os que pensam que o Estado tem de ser maior ou que se deva aumentar tarifas, nem que o aborto deva ser legal. Mas, se tu protestas contra um governo autoritário, te espera uma das “e”: serás enterrado, exilado ou encarcerado. Isso é inconcebível.
Qual sua opinião sobre o Mercosul, neste momento do acordo de livre-comércio com a União Europeia?
Tenho sido tremendamente cético. Não creio, como uma pessoa que acredita no livre-comércio, em um arranjo comercial de tarifa externa comum alta. A integração comercial do Mercosul deixa muito a desejar. O único lugar onde a integração do Mercosul funciona é no ataque de times europeus. É o único lugar onde jogam argentinos, Messi, brasileiros, Neymar, Rafinha, e os uruguaios. Aqui, nunca funcionou. Em relação ao arranjo com a Europa, sigo cético. O protecionismo dos Estados Unidos e o incremento das tarifas têm obrigado a Europa a se abrir de forma que antes não queriam. A União Europeia é um sistema muito protecionista no setor agrícola. Então, se o Mercosul, que tem um mecanismo semifechado, juntar-se com outra região, em que pelo menos na parte agrícola é tremendamente fechada... Mandaram o acordo à Justiça, é necessário esperar dois anos, já esperaram 26, "vigência de forma provisória". Um acordo comercial de União Europeia–Mercosul, que a França não quer, que a Polônia não quer, nem vai querer nunca, não me parece estrutural. Prefiro o que fazem Chile, Peru e Equador: abertura, livre-comércio com a China, com a Coreia do Sul, com o Japão, com a Malásia, com a Indonésia, com a Europa. Quero mover-me muito mais rápido do que a lenta velocidade do Mercosul, que, multiplicado pela lenta velocidade da União Europeia, gera uma lentidão que é quase paralisia.
Deseja voltar à presidência?
Tentamos no ano passado, estivemos no segundo turno, quando ocorreu algo peculiar. Evo ainda tem algum apoio, e mostrou isso no ano passado. Fiz 45% de votos. Se eu lhes digo: “Votem no Rodrigo” (candidato que venceu a eleição e se elegeu presidente), nem a minha mãe vai fazê-lo. Se Evo diz: “Votem no Rodrigo”, eles o fazem. Em agosto do ano passado, ele disse: “votem nulo”. Depois, disse: “votem contra "Tuto" Quiroga”. Mudaram de nulo, para o PDC (do candidato eleito Rodrigo Paz Pereira), que era contra mim. E os votos se moveram. Então, ele ainda tem capacidade de fazer coisas. Quero que este governo se saia bem. Porque, se isso não ocorrer, muita gente dirá: “deveria ter sido "Tuto"". Mas outros dirão: “Era o Evo que deveria estar lá”. Eu sei que ele joga muito com isso. Já se vão cinco meses, falta velocidade, não há dólares ainda. Não há novas leis. Era preciso fazer novas leis de hidrocarbonetos, de eletricidade, de mineração, de investimentos, acordos comerciais, mudar todas as instituições. Está tudo corrompido. Há muitos temas que preocupam. Mas espero que o governo vista a camisa e vá bem, porque eu quero que o meu país vá bem. Obviamente, eu pensava que eu podia fazer o necessário. Se outro tem a oportunidade, o que mais desejo é que vistam a camisa, acelerem e façam as coisas bem, porque, a Bolívia, depois de 20 anos, se não houver mudanças rápidas, vai colapsar.


