
Você se lembra de como era Porto Alegre em 1999? Era uma cidade com menos prédios altos. Bairros como Moinhos de Vento, Bela Vista e Petrópolis tinham edifícios, mas não na escala atual. Regiões como Três Figueiras e Jardim Europa estavam em processo de urbanização. Condomínios-clube e torres residenciais de alto padrão ainda não eram comuns.
A orla do Guaíba era pouco utilizada, e o Cais Mauá estava praticamente abandonado. A Capital tinha menos shoppings. Não existiam, por exemplo, o BarraShoppingSul, o Bourbon Wallig e o Pontal Shopping. O consumo era mais concentrado em vias comerciais, como a Rua da Praia, e as avenidas Protásio Alves e Azenha.
Havia menos trânsito, mas já crescente. O número de carros era praticamente a metade da atual, aplicativos de mobilidade não existiam, tampouco havia ciclovias estruturadas e patinetes elétricos.
Essa era a Porto Alegre quando o Plano Diretor foi revisado pela última vez de forma ampla pela Câmara Municipal, no longínquo 1999, resultando em uma Lei Complementar que entrou em vigor em 2000. Em 2009, outra Lei Complementar alterou e incluiu dispositivos no plano.
Porto Alegre não era ainda a cidade que conhecemos hoje, com a Orla revitalizada, mas o período foi marcado por expansão imobiliária, descentralização do comércio e aumento do uso de carros. A grande novidade urbana foi a inauguração do Barra, que mudou a dinâmica da cidade, criando um novo polo econômico na Zona Sul.
A Avenida Carlos Gomes virou o principal eixo corporativo da cidade. Algumas avenidas, como Ipiranga, Bento Gonçalves e Terceira Perimetral, concluída naquela década, passaram a ter congestionamentos diários.
Como se vê, a cidade é um organismo vivo. Vai se modificando, ano a ano, década a década. Por isso, o Estatuto da Cidade, uma regra que vale para todos os municípios do país, recomenda a revisão do Plano Diretor a cada 10 anos. O de Porto Alegre deveria ter sido revisado em 2020. O processo teve início, mas foi interrompido pela pandemia de covid-19. Depois, veio a enchente monumental de 2024. E lá se vão seis anos de atraso.
Reside justamente aí, nessa esquina da história, uma oportunidade rara de construirmos, como porto-alegrenses, o principal instrumento de desenvolvimento e organização da cidade. Poucas capitais do mundo passaram pelo que vivenciamos aqui. Do trauma urbano da enchente precisamos extrair aprendizados. Precisamos ser melhores.
A discussão do Plano Diretor, que começou nesta segunda-feira (16), na Câmara Municipal é uma oportunidade única de tornar Porto Alegre mais moderna, próxima do Guaíba, conectada, sustentável, adaptada aos efeitos das mudanças climáticas, acessível, plural, enfim, melhor de se viver.
Esse debate, fundamental para o futuro, exige do Legislativo não apenas conhecimento técnico, mas alguma dose de empatia e, sobretudo, desprendimento de ideologias e interesses particulares.
Isso é muito difícil em ano eleitoral. Mas é fundamental que os vereadores estudem os dois documentos do projeto, busquem subsídios, e, sobretudo, pensem no todo.
Não é um debate fácil. Que nossos vereadores estejam à altura desse desafio, talvez o maior de uma geração de políticos que está aí.





