
A pesquisa apresentada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), durante a Expodireto, em Não-Me-Toque, desmonta qualquer argumento retrógrado e carregado de ideologia segundo o qual o produtor rural brasileiro seria negacionista das mudanças climáticas. Não é.
Os números mostram que 86% dos agricultores acreditam que as mudanças climáticas já impactam a produção agrícola. O percentual é idêntico no Rio Grande do Sul e no restante do país.
A diferença aparece quando se observa o que os produtores fazem com essa percepção. E é aí que surgem duas palavras-chave para entender o momento do agro: adaptação e resiliência.
Apenas 23% dos agricultores gaúchos consideram altas ou muito altas as barreiras para implementar medidas de mitigação ou adaptação climática. No Brasil, esse percentual chega a 31%. Ou seja: mesmo diante das dificuldades, o produtor do Estado demonstra maior disposição para agir.
O agricultor gaúcho é, antes de tudo, um forte — para usar a expressão consagrada por Euclides da Cunha em "Os Sertões", ao se referir ao sertanejo.
Nos últimos anos, o homem e a mulher do campo no Rio Grande do Sul enfrentaram uma enchente histórica e três estiagens consecutivas. Permanecer produzindo depois de crises dessa magnitude exige mais do que resiliência. Exige sobrevivência. E a sobrevivência no campo costuma gerar duas coisas: casca dura e inteligência prática.
Ainda existe quem, a cada início de safra, diga que “o tempo vai ajudar”. Durante a COP30 ouvi essa frase mais de uma vez.
Mas apostar apenas na sorte já não basta. É preciso ciência. O agricultor gaúcho vem incorporando essa lógica há anos. A rotação de culturas — com soja e milho no verão e trigo no inverno — mantém o solo coberto ao longo de todo o ano e ajuda a protegê-lo. O uso crescente de bioinsumos reduz custos de adubação e melhora a produtividade. Máquinas gigantescas, equipadas com tecnologia de precisão, fazem mais com menos, consumindo menos combustível e aumentando eficiência.
Mas há obstáculos claros.
Implementar medidas ambientais custa caro. E boa parte dos produtores está hoje endividada. A pesquisa mostra uma demanda recorrente por mais acesso a crédito e assistência técnica. Muitos agricultores gostariam de ter maior presença de técnicos em suas propriedades para orientar decisões diante de um clima cada vez mais imprevisível.
O levantamento da ABMRA também revela um campo em transformação. O agricultor gaúcho é mais jovem e mais escolarizado que a média nacional. A idade média no Estado é de 44 anos, contra 48 anos no Brasil. E 19% têm ensino superior completo, mais que o dobro da média nacional, de 9%. Isso significa um produtor mais aberto à inovação, à tecnologia e à ciência aplicada ao campo.
No entanto, pesquisa guardada em gaveta não resolve problema nenhum. Os dados deveriam servir de base para políticas públicas concretas: linhas de crédito para adaptação climática, juros reduzidos para irrigação eficiente e recuperação do solo, incentivos à agricultura de baixo carbono, um seguro agrícola mais robusto e maior presença da assistência técnica no campo.
O plantio direto, técnica que nasceu no Rio Grande do Sul e hoje é referência global, mostra que o produtor gaúcho sabe inovar quando tem condições para isso.
O agro brasileiro carrega uma parte decisiva da economia nacional. Alimenta as cidades, sustenta cadeias produtivas inteiras e responde por parcela significativa do PIB do país.
Mas, diante de um clima cada vez mais instável, uma coisa é certa: o futuro da agricultura não será decidido pela sorte. Será decidido pela ciência, pela tecnologia e pela capacidade de adaptação de quem produz.



