
Um mês após o início do conflito de Estados Unidos e Israel contra o Irã, Rússia e China não são protagonistas diretos da guerra, mas observam atentamente as movimentações no cenário do Oriente Médio e, sobretudo, extraem aprendizados dessas ações.
Observar, "de camarote", como rivais se movimentam é ouro do ponto de vista estratégico. Não só porque permite traçar cenários, em treinamento para uma eventual guerra, mas porque é possível conhecer em campo as armas que cada um utiliza.
Se a Rússia, em guerra contra a Ucrânia neste momento, decidir, por exemplo, invadir países bálticos, e a China intensificar movimentos em torno de Taiwan, as duas potências poderiam coordenar pressão indireta sobre os Estados Unidos, estimulando o Irã a fechar o Estreito de Ormuz.
A passagem mostrou-se, neste conflito, uma grande ferramenta de barganha geopolítica para o Irã, tradicional aliado de Rússia e China. Boa parte das economias ocidentais se desesperaram quando os aiatolás fecharam a rota, por onde circula 20% do petróleo mundial.
Nesse caso, os Estados Unidos enfrentariam simultaneamente três frentes críticas — Europa Oriental, Ásia-Pacífico e Oriente Médio —, com impacto sistêmico na sua capacidade de resposta.
No curto prazo, a Rússia já colhe ganhos objetivos. A elevação do preço do petróleo, impulsionada pela instabilidade no Golfo Pérsico, favorece diretamente sua economia. Além disso, houve alívio indireto sobre o petróleo russo, que estava represado no mercado internacional, em meio à reorganização das rotas energéticas. A Rússia também teve sanções amenizadas.
Em outras palavras, enquanto os Estados Unidos se envolvem mais profundamente no conflito, a Rússia vê seu principal ativo — energia — ganhar valor estratégico.
A China, por sua vez, joga um jogo ainda mais de longo prazo. Com reservas estratégicas estimadas em cerca de 1,4 bilhão de barris de petróleo, o país tem margem para absorver choques de oferta no curto prazo — especialmente considerando que cerca de 20 milhões de barris por dia passam por Ormuz, em um mercado global de aproximadamente 100 milhões diários.
Essa “almofada” energética permite ao país observar o conflito com relativa tranquilidade, enquanto analisa — quase como um laboratório geopolítico — os limites da ação americana em um cenário de múltiplas crises simultâneas.






