
Como se sabe, em política não há vácuo de poder. Quando uma liderança, instituição ou Estado se omite ou enfraquece, outro ator — legal ou ilegal — assumirá o controle do espaço deixado. Daí a pressa do regime iraniano em designar um triunvirato para comandar o país após a morte do líder supremo Ali Khamenei.
O aiatolá que governou o Irã com mão de ferro desde 1989 tinha 86 anos e era considerado o maior inimigo de Israel. Sua cabeça estava a prêmio desde sempre. Devido à idade avançada de Khamenei e ao fato de ter um alvo marcado na testa, a sucessão era um debate recorrente, aprofundado desde a guerra de 12 dias de junho passado.
O sistema político iraniano se baseia no conceito de velâyat-e faqîh — a “tutela do jurista islâmico” —, que confere ao líder supremo autoridade sobre Estado e governo, acima do presidente e do parlamento. Não é um cargo hereditário. O nome é escolhido pelo chamado Conselho de Especialistas. Também deve ser um aiatolá, ou seja, um líder religioso. Khamenei não o era, quando Ruhollah Khomeini morreu. Mas era discípulo direto do líder da Revolução, e o regime deu um "jeitinho". A Assembleia dos Especialistas precisou modificar a Constituição para permitir sua nomeação.
Mais de 60% da população iraniana nasceu depois da Revolução. Não têm a memória viva da derrubada do xá, no golpe que converteu a monarquia secular (corrupta e aliada dos EUA) para uma teocracia (sanguinária e aliada da antiga URSS). A maior parte dos cidadãos não vivenciou outra forma de Estado e tem expectativas diferentes sobre legitimidade, representação e autoridade religiosa.
Em sociedades onde gerações mais jovens compõem a maioria, a ausência de memória de um regime anterior abre espaço para questionamentos, normalmente reprimidos pelo Estado. Esses movimentos revelam tensões profundas entre gerações — muitos dos quais cresceram sob sanções, restrições sociais e sem perspectivas de abertura política — e o establishment clerical.
O futuro do Irã não depende só dos EUA e de Israel. A sucessão não é apenas uma formalidade institucional, mas um momento em que essas tensões se cristalizam em torno de uma linha-dura. Não há uma "Delcy Rodríguez" iraniana. Um nome que não tenha a alma da Revolução ou que não a tenha vivido — até porque lá se vão 47 anos -, pode reforçar o poder da Guarda Revolucionária. O componente militar passaria, pela primeira vez, a ter mais peso do que o religioso.




