
O jurista e professor da UERJ Gustavo Binenbojm faz um eloquente alerta sobre o recrudescimento de ataques a judeus, desde os atentados terroristas de 2023 e a resposta israelense contra o Hamas.
As ameaças cresceram também a partir da guerra contra o Irã, em fevereiro deste ano.
No domingo, ele esteve em Porto Alegre, lançando seu livro Antissemitismo Estrutural (Editora História Real), durante bate-papo organizado pelo Grupo de Amigas da Comunidade Israelita. A obra faz um histórico do ódio aos judeus ao longo da história e traz reflexões sobre o fenômeno nos dias atuais.
A seguir, trechos da entrevista concedida à coluna.
O quanto os atentados de outubro de 2023 e a resposta de Israel contribuíram para o aumento do antissemitismo?
De outubro de 2023 para cá, há uma hostilidade em ambientes intelectuais e corporativos muito acentuada. Nas universidades, há uma natural simpatia à causa palestina, identificada como causa dos oprimidos e uma descarga emocional, mais do que apenas ideológica, nos que são identificados como proxies judaicos: o Estado de Israel e as instituições da comunidade judaica em diáspora, como clubes, escolas, sinagogas e movimentos juvenis. Isso tem uma associação simbólica com a Noite dos Cristais, com a Idade Média. É um diagnóstico do antissemitismo estrutural, que é inconsciente. Isso aconteceu ontem (domingo, quando um ex-candidato a deputado pelo Psol afirmou que turistas israelenses seriam "criminosos de guerra") no sul da Bahia, em Itacaré, mas já vem acontecendo, e aconteceu no Carnaval carioca. Vi pessoas literalmente quererem malhar o Judas. A malhação do Judas é uma prática que vem desde a Idade Média, uma alusão ao discípulo que traiu Jesus, mas é também uma lembrança por essa coincidência de nomes. Judas Iscariotes, além de tudo, era judeu. É um elemento do inconsciente coletivo, recorrentemente invocado, sem que as pessoas se deem conta.
Como o antissemitismo se manifesta no país?
Os ambientes mais hostis hoje em dia são as universidades públicas e privadas. Há também, no ambiente corporativo, uma certa desconfiança. As pessoas torcem o nariz, quando não se deveria fazer uma associação entre a guerra de um Estado nacional (Israel) com outro. São Paulo tem a segunda maior colônia de descendentes de italianos. Se a Itália entrar em guerra, todo mundo que tem sobrenome italiano vai começar a ser vítima desse tipo de preconceito? Para quem é judeu, infelizmente, é perceptível um estado de ânimo mais exaltado, hostil, em alguns ambientes. As pessoas voltaram a ter essa capacidade de associar a guerra de Israel contra seus inimigos históricos a uma hostilidade.
É uma internalização de uma guerra que não é do Brasil?
Essa guerra não é nossa. A nossa tradição de um país de migrantes permitiu que os melhores amigos do meu avô, por exemplo, fossem libaneses. Essa internalização de um conflito que não é nosso é a prova de que existe, no inconsciente coletivo da humanidade, um vírus capaz de trazer de volta uma velha hostilidade. É mais um capítulo nacional de um fenômeno global: uma tentativa de ter a quem culpar, de maneira simplista, infundada e às vezes contraditória. Então, "eu vou linchar o cara, eu vou xingar o membro da comunidade judaica", que tem uma ligação afetiva e familiar, às vezes, histórica com o Estado de Israel, simplesmente por conta dessa ligação, mesmo que ele não tenha nenhuma responsabilidade por isso, como boa parte dos jovens da festa da rave atacada em 7 de outubro no sul de Israel. Muitos, inclusive, eram simpáticos e militantes da causa palestina. E muitos jovens ali eram de esquerda. Cerca de 20% dos quase 10 milhões de israelenses são não judeus. São muçulmanos, cristãos ou drusos, cidadãos israelenses ativos e presentes no Knesset (parlamento). Hoje já tem até um juiz da Suprema Corte, que é cidadão israelense muçulmano. É um país de gente muito esclarecida e muito crítica a Benjamin Netanyahu.
Como convivem com as ameaças?
A Conib vem percebendo no Brasil ataques antissemitas online e em lugares públicos, como universidades, escolas, na frente de sinagogas, no ambientes de trabalho. Um aumento, de 2023 para cá, de 400%. É assustador. A gente que já vivia um pouco encarcerado, hoje em dia naturalizou um nível de segurança: é viver com as portas fechadas. As escolas judaicas gastam dinheiro com seguranças privadas, com portas duplas e paredes à prova de bala.
Quando se fala em antissemitismo estrutural, não basta não ser antissemita, é preciso ser anti-antissemita.
Como estão atuando células extremistas adormecidas no Brasil?
Uma novidade é que, de 2023 para cá, a Polícia Federal tem feito prisões de pessoas cooptadas ora pelo Hezbollah, ora pelo Estado Islâmico. E esse núcleo, infelizmente, está em uma área onde fica a maior comunidade muçulmana, concentrada na Tríplice Fronteira. É uma minoria, pessoas absolutamente desvirtuadas, mas que estão se tornando mais numerosas. Isso me leva a crer que está havendo uma expansão do aporte de recursos e de cooptação, via internet, de "soldados" desses movimentos jihadistas. É lamentável que isso aconteça, mas existe um perigo rondando, inclusive o Brasil.
Poderia explicar a analogia entre o racismo estrutural e o antissemitismo, que você faz no livro?
Tão importante identificar traços em comum dos fenômenos é reconhecer traços diferenciadores. São fenômenos paralelos, que têm uma dinâmica parecida, mas com causas e circunstâncias episódicas, ao longo da história, diferenciadas. Ambos são fenômenos que podem ser chamados, do ponto de vista da teoria social, como estruturais. Estou convencido de que o antissemitismo não é algo decorrente de conflitos episódicos e que geram reações individuais. Esse fenômeno existe difusamente, em uma espécie de inconsciente coletivo. Os fatos comprovam a hipótese de que existe na corrente sanguínea da humanidade um vírus que circula e que ele pode, de vez em quando, infectar tecidos sociais e se manifestar de maneira mais aguda em lugares ou em circunstâncias especiais. O que eu quero dizer com isso é que o que se manifesta fora, na sociedade humana, no ambiente externo, é produto de algo que existe no interior dos seres humanos. É algo que as pessoas acessam em momentos em que precisam culpar determinadas minorias por situações graves e que são em geral multifatoriais, em geral crises econômicas, políticas, guerra, fome. As pessoas têm quase como uma falha cognitiva, de percepção da realidade, que as empurra para uma culpa, um bode expiatório. E esse bode expiatório, em muitas circunstâncias, são os judeus. Mas, em muitas circunstâncias, no Brasil, foram os negros.
Como enfrentar o antissemitismo, presente inclusive na linguagem, em termos como "judiaria"?
O antissemitismo, sendo um fenômeno que oprime, machuca, faz com que a própria comunidade judaica tenha sido empurrada, no espectro ideológico, para a direita. Quando se fala em antissemitismo estrutural, não basta não ser antissemita, é preciso ser anti-antissemita. É preciso letramento anti-antissemita, lembrar os judeus sobre sua evolução civilizatória, de igualdade, de inclusão de tratamento com tolerância e respeito pelas minorias. Isso é uma conquista que beneficia a todos, inclusive a comunidade judaica, que é a minoria por excelência. É um pouco para dentro que eu falo isso e, sobretudo, para fora. Faz parte do letramento ressignificar a linguagem, explicar às pessoas e permitir que elas se previnam de cometer erros por desinformação.






