
Começar uma guerra — ou qualquer grande empreitada estratégica — sem objetivos claros é uma das decisões mais perigosas que um Estado pode tomar.
Conflitos mal definidos tendem a se alongar, a se expandir e a produzir efeitos colaterais difíceis de controlar. Quando não há uma meta explícita — derrubar um regime, destruir uma organização, dissuadir um adversário — os propósitos vão sendo ajustados no meio do caminho. O resultado costuma ser o prolongamento indefinido do conflito, a ampliação do escopo original e o envolvimento inesperado de novos atores. Guerras iniciadas com justificativas vagas frequentemente terminam com metas reescritas.
Basta olhar para o ataque dos Estados Unidos ao Afeganistão, em 2001. O objetivo anunciado era claro: eliminar a Al-Qaeda e capturar Osama bin Laden, o mentor dos atentados de 11 de setembro. O desfecho, no entanto, foi outro: mudança de regime — saiu o Talibã, entrou a Aliança do Norte, apoiada por Washington —, a morte de bin Laden apenas dez anos depois e, duas décadas após a invasão, o retorno do próprio Talibã ao poder. Ficaram milhares de mortos, bilhões de dólares gastos e 20 anos de guerra.
No Iraque, o roteiro se repetiu. A invasão de 2003 foi justificada pela necessidade de eliminar as supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Elas nunca foram encontradas. Houve mudança de regime, o país mergulhou em uma guerra civil prolongada e, no vácuo de poder, surgiu um novo grupo extremista: o Estado Islâmico.
Eram essas as “guerras intermináveis” que Donald Trump prometia encerrar ao pedir o voto dos americanos.
No quarto dia após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, torna-se mais evidente a ausência de um objetivo claramente delimitado. E, sem objetivo, é impossível medir resultados. Trump não declara abertamente que busca a queda dos aiatolás — embora incentive a população iraniana a reagir ao regime. Afirma que os bombardeios podem durar quatro ou cinco semanas, ou “o tempo que for necessário”. Diz que o alvo é o programa nuclear iraniano — mas este já não teria sido “obliterado”, nas palavras do próprio presidente, na guerra de junho passado? Se uma nova ofensiva é necessária, isso sugere que o objetivo anterior não foi plenamente alcançado.
No caso de Israel, que volta a bombardear o Líbano, o padrão parece semelhante. A justificativa é eliminar posições do Hezbollah de onde partem foguetes contra o norte do país. Mas essas ameaças não teriam sido neutralizadas em setembro de 2024, quando uma ampla operação foi deflagrada para permitir o retorno dos moradores aos vilarejos do Norte, evacuados desde o massacre de 7 de outubro de 2023? Cidades libanesas, entre elas Beirute, foram atingidas; Hassan Nasrallah foi morto; centenas de pagers explosivos eliminaram lideranças da organização. Ainda assim, a ameaça persiste?
Em Gaza, o governo de Benjamin Netanyahu levou mais de dois anos para trazer o último refém para casa — os restos mortais de Ran Gvili, morto aos 24 anos —, devastou o território em um conflito que matou milhares, mas o o grupo terrorista Hamas, ao que tudo indica, não foi erradicado.
Para concluir uma guerra, é preciso saber exatamente qual é o objetivo. Para terminar o serviço, é indispensável definir qual é esse serviço.



