
Em entrevista ao programa Conversas Cruzadas, de GZH, a física e reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marcia Cristina Bernardes Barbosa, fez uma avaliação do primeiro ano à frente da maior instituição de Ensino Superior do Estado, falou sobre a estrutura dos campi, a presença das mulheres na ciência, os feminicídios, os desafios de estrutura e pesquisa e as críticas sobre suas manifestações recentes em redes sociais.
Abaixo, leia os principais trechos da conversa.
Assista à íntegra em vídeo
Qual o balanço desse primeiro ano como reitora?
Foi um ano de bastante desafios, não só pela questão orçamentária, mas porque essa é uma reitoria democrática. Então, todo tema que trouxemos para votar teve uma discussão interna, feita de unidade em unidade. Não passamos por cima dos conselhos: tem debate, discussão, processo. E terminamos aprovando essa Pró-Reitoria (de Ações Afirmativas e Equidade), apesar de muitas pessoas acharem que, com pouco dinheiro, "vai se criar mais uma coisa".
Um ano depois de assumir a reitoria, qual foi o maior acerto e qual o maior erro?
O nosso maior acerto foi o Campus Serra. Vai ser um grande esforço coletivo da nossa universidade, mas vai nos levar para uma região do Estado que me preocupa muito, tanto na parte de indústria, agricultura, quanto no setor de serviços, que precisa se qualificar. O que me preocupa como grande erro é não termos ousado mais no nosso orçamento. A gente, para ganhar, foi modesto. Não podemos ser modestos. Para o próximo ano, vou tensionar, engordar esse orçamento, porque não está dando para consertar coisas que estão caindo aos pedaços em uma universidade velha.
Por exemplo?
Temos problemas de telhados no Campus do Vale, porque são prédios velhos. Imagine sua casa antiga, na qual não foi feita nenhuma reforma, simplesmente porque o dinheiro do seu salário dá para pagar água, luz, telefone, assistência estudantil, e não sobra nada. Ao mesmo tempo, para pesquisa, que é um outro dinheiro, a gente consegue. Eu estou com microscópios caríssimos, equipamentos caríssimos, em prédios com goteiras.
Sobre o Campus Serra em Caxias do Sul, houve resistências.
Primeiro, não era um plano da nossa gestão. Lá tem muita criança e nasce mais gente do que morre. É um bom local para colocar qualquer coisa de ensino. Há um público-alvo, tem desafios e empregabilidade. Mas, obviamente, a comunidade abraça muito a sua comunitária (a Universidade de Caxias do Sul, UCS), mas apenas ela não dá conta. Agora, está na etapa de orçamento. Vou quarta-feira (4) ao governo federal para garantir o dinheiro. Eles juram que está garantido, mas não está no meu bolso ainda. Quando estiver no meu bolso, aí eu estarei garantida para fazer a negociação da compra do prédio onde vamos instalar, no centro da cidade.
Está definido o prédio?
Está definido o Edifício Sofia, onde tinha uma universidade. Não gosto de fazer reforma em casa minha. Reforma em universidade federal é péssima, porque temos de fazer licitação e nem sempre se tem sucesso em ter o melhor produto. Foi esse o critério que o Conselho Universitário definiu.
O que a senhora pensa sobre esse ambiente polarizado, que culmina em perseguição muitas vezes dentro das universidades?
Eu sou vice-presidente de uma união internacional de ciência e vice-presidente de Liberdade e Responsabilidade. Até então, nessa organização, lidavam com aqueles países com governos totalitários, pequenos, que impediam as pessoas, principalmente da área de Ciências Sociais, de se manifestarem. Quando entra os Estados Unidos como vilão, há um certo constrangimento com o fato de sermos mais duros. Precisamos ser duros: salientar que ciência se faz com liberdade. Quando começa a perseguir, a gente perde os cientistas. Foram embora do Brasil, assim como estão indo embora dos Estados Unidos.
Imagino que deva acontecer uma tentativa de patrulhamento dentro da sala de aula.
Nós tínhamos uma formação no Estado do Rio Grande do Sul no Ensino Fundamental e Médio, se falava sobre as pessoas se tratarem bem, incluindo tratar bem mulheres. Quando entra um governo que vem com essa ideologia de gênero que diz que não se pode mais falar sobre isso em sala de aula, tu começas a criar, na cabeça das pessoas, uma falta de formação que leva a um aumento da agressividade e do assédio. E o assédio, quando escalonado e permissivo, leva ao feminicídio. As pessoas estão só olhando a pontinha, que é o feminicídio, sem olhar a raiz. Iniciando essa discussão lá embaixo, a gente previne o problema aqui em cima.
A senhora é muito atacada por ser mulher, nas redes sociais especialmente?
Eu sou uma mulher em uma área que só tem homens, que é a Física Teórica. Sou uma mulher latina, ainda por cima, que é a minoria da minoria, e uma mulher que se veste como mulher, não procuro esconder. Gesticulo muito, faço muita piada. Tudo isso sempre foi um pacote de incomodação, de perturbação. Sou a estrela principal da minha vida, gente. Eu não vou abrir mão de ser Márcia para qualquer coisa. E não atrapalha, porque a caixa precisa ser quebrada. Precisamos ter pessoas diferentes exercendo funções, porque elas trazem a sua experiência e modificam, trazem inovação. Obviamente, eu sou muito atacada nas redes sociais. Mas não se preocupe, esse ódio vai virar artigo científico maravilhoso e uma dissertação de mestrado.
Como a senhora lida com as críticas?
Eu tento entender porque chegamos a nesse local. Tento entender quanto dessa crítica tem a ver com o fato de eu ser mulher ou eu ter certas posições. Eu gosto de entender esse fluxo.
Lê comentário em redes sociais?
Leio comentário. Robô não se dá bola porque é alguém replicando, mas, quando é gente, é importante olhar e pensar porque essa pessoa está com tanta raiva. Por que ela parou o dia dela para escrever a uma pessoa que ela não conhece, para xingar. E começo a comparar a quantidade de raiva em um post com outro. Eu quero entender esse algoritmo humano. Por que alguns homens brancos estão tão tensionados no momento em que as mulheres se empoderam? Não se preocupe, eu não fico magoada, chorando em um canto, não é muito da minha personalidade. Acho que nasci caindo em um pote de endorfina, eu tenho um ânimo bastante grande. Corrida de manhã ajuda bastante.
A senhora foi bastante atacada por um vídeo no Carnaval em que manifestou apoio ao presidente Lula. Por que apagou o vídeo? Pode explicar o episódio?
Para começar, as pessoas estão confundindo três vídeos. Eu fiz dois vídeos, postei na minha rede social, que é o da camisinha e que eu estou com óculos escuros, dançando. E alguém postou o vídeo de eu fazendo o "L". Mas deixa eu explicar: em dezembro, quando estava todo mundo no seu Natal, eu fiquei sabendo dos cortes orçamentários que o Congresso Nacional tinha feito (que seria destinado às universidades federais). Pedi para o presidente Lula cortar emenda parlamentar e devolver o dinheiro para a universidade. Em janeiro, ele fez isso. Se não tivesse devolvido, a universidade não teria dinheiro para pagar a luz. Vocês entendem a gravidade disso? Eu gosto de dizer, luto para mim é verbo. Eu vou lutar e eu sou grata pelo presidente ter nos devolvido esse orçamento.
Não quero deixar de perguntar sobre esse impasse envolvendo a ocupação lá no Campus do Vale. Pode explicar?
A gente tinha, antes da pandemia, uma farmácia no Campus do Vale. Essa farmácia fechou e está em processo de licitação, então era um espaço que estava vago. Esse grupo de estudantes, justificadamente, tem uma angústia, que é o fato que na universidade a gente precisa ampliar os espaços de acolhimento à questão de assédio. A maioria dos estudantes, e eu não me dava conta disso, não sabe que na ouvidoria tem acolhimento. Então, a gente está numa discussão de a gente mostrar o que tem, tentando negociar uma ampliação para que elas possam desocupar esse espaço antes da gente terminar a licitação para ter ali uma farmácia. A causa é justa, o método é que a gente está discutindo para poder dar profissionais da universidade, ampliar o conhecimento da ouvidoria, que a gente tem projetos de extensão que fazem acolhimento, e que pessoas sem formalização em projetos de ensino, pesquisa e extensão não podem fazer atividades dentro da universidade. Sou muito rigorosa com isso.
Quero encerrar falando sobre seu destaque na lista da Forbes. Qual foi o seu sentimento ao saber da honraria?
É uma responsabilidade, porque ali são algumas mulheres. Nós temos pesquisadoras absolutamente incríveis em todo o Brasil e principalmente incríveis na nossa UFRGS. Então, é para dar um gostinho para vocês de como a gente produz ciência de qualidade no Brasil, como a gente tem pessoas dedicadas a fazer, e, particularmente, mulheres dedicadas. Eu só acho que é bem importante a gente não esquecer, que é muito fácil a gente esquecer as pessoas. A gente ouve, festeja, e daqui a um pouco já não lembra mais.
O Conversas Cruzadas vai ao ar de segunda a sexta-feira, no streaming, com os assuntos que mais impactam o público. O espaço discute, entre outros assuntos, economia, cidades, política, educação e saúde. O programa é transmitido ao vivo no canal do Youtube de GZH e também pelo site e pelo aplicativo.





