
Se há um tema que une tanto a esquerda quanto a direita brasileiras é o da soberania nacional. A defesa da Amazônia contra ambições externas, então, nem se fala.
Na direita, a Amazônia costuma ser vista como fronteira geopolítica e recurso estratégico: um território rico em biodiversidade, água, minerais e potencial energético, cuja proteção seria essencial para evitar ingerências externas e garantir, por meio do Estado — e das Forças Armadas, em especial — o controle brasileiro sobre recursos naturais de alto valor.
Na esquerda, a preocupação com a soberania aparece associada a outra dimensão: a ideia de que a proteção ambiental e os direitos das populações locais são parte da própria afirmação do Estado brasileiro sobre o território. Nesse entendimento, a Amazônia não pode ser internacionalizada nem submetida a interesses externos.
Eis que surge Donald Trump, transformando o Caribe em um lago americano, pressionando a Venezuela — nas barbas do Brasil —, ameaçando Cuba e, de quebra, articulando um plano de combate ao narcoterrorismo que projeta tentáculos da CIA e da DEA sobre a América do Sul.
A época em que o Brasil se orgulhava de dizer que suas fronteiras com os vizinhos foram definidas à mesa de negociação parece cada vez mais distante. Assim como a ideia de que a América do Sul é um continente de paz. A doutrina Trump rompe com esse pressuposto.
Está na hora de o Brasil transformar o receio em investimento em defesa — seja no atual governo, seja no que assumir em janeiro do ano que vem. Seja de direita, esquerda ou centro.
O jornalista Marcelo Godoy, do Estadão, teve acesso a um documento produzido por oficiais do Estado-Maior do Exército sobre o atual conflito no Oriente Médio. O relatório aponta seis pontos críticos na defesa brasileira: saturação do espaço aéreo por drones, colapso logístico por falta de munição, paralisia decisória causada por desinformação, cortes orçamentários em programas estratégicos, limitação na antecipação de ameaças e isolamento geopolítico regional.
Entre esses riscos, um se destaca: a saturação do espaço aéreo por drones em caso de ataque de uma potência estrangeira, classificada no documento como de probabilidade alta e impacto crítico. Para enfrentar esse cenário, os militares sugerem a aquisição de sistemas antidrone.
O próprio ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, admite que o Brasil teria munição para apenas 30 dias de um conflito moderno. Está na mesa do presidente Lula um plano apresentado pelo Exército que prevê investimentos de R$ 456 bilhões entre 2026 e 2040 para que o país possa responder às ameaças do novo cenário geopolítico.
O valor parece colossal, mas dois terços desse montante destinam-se a custeio. Sobra apenas um terço para investimento real em capacidades militares. É necessária uma blindagem jurídica e institucional dos projetos estratégicos e aumento do percentual do PIB gasto na Defesa. Hoje, o país consome 1,1% do PIB na área. A caserna quer 2%. Assustados com a Rússia e o abandono americano, europeus já admitem 5% até 2035.
Com um território de 8,5 milhões de km² — cerca de cinco vezes maior que o do Irã, que tem aproximadamente 1,6 milhão de km² , e uma área marítima sob jurisdição comparável à da própria Amazônia — daí o conceito de Amazônia Azul, utilizado pela Marinha — o Brasil precisa, com urgência, de um projeto consistente de defesa nacional.


