
Na véspera de o conflito no Oriente Médio completar uma semana, Estados Unidos e Israel falam que a guerra entrou em uma nova fase, com os americanos anunciando "aumento dramático de bombardeios", e os israelenses prometendo "surpresas".
O que, na prática, isso significa?
Podemos considerar que a primeira fase, iniciada com o ataque de sábado (28), foi uma clássica operação de decapitação do regime - ou seja, "as cabeças" do governo iraniano seriam cortadas. De fato, o ataque ao complexo de Teerã, durante o dia - algo que os aiatolás não esperavam -, eliminou não apenas o líder máximo, Ali Khamenei, mas também figuras proeminentes do governo e da elite política, como o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad. Também foram atingidas redes de mísseis balísticos e o sistema de defesa antiaérea, que garantiu superioridade nos céus a americanos e israelenses.
Nesta segunda fase, os alvos seriam não necessariamente pessoas, mas a infraestrutura do regime: bases militares e centros de comando e controle. Os Estados Unidos passariam a utilizar mísseis Hellfire e "bombas burras" (de queda livre) integradas com kits de GPS, dispositivo que as torna "inteligentes". Essa é uma adaptação inventada pelos americanos (e copiado pelos russos na atual guerra na Ucrânia), que permite emprego de um armamento mais barato, com precisão.
Em sua última manifestação, o presidente Donald Trump descartou o uso de tropas terrestres, mas parece ter encontrado um "exército" local para chamar de seu. A coluna já alertou que apenas bombardeios aéreos não derrubam regimes e que a oposição iraniana não é unificada nem forte o suficiente para ser insuflada contra os aiatolás. Os EUA, tudo indica, estão começando a armar curdos do leste do país. Como sua ação contra o grupo terrorista Estado Islâmico no vizinho Iraque, no norte do país) demonstrou, eles são valentes guerreiros, contando inclusive com mulheres como combatentes. Há vários grupos no Irã, o principal deles é o PJAK (Partido da Vida Livre do Curdistão).
Essa organização faria o papel exercido pela Aliança do Norte contra o Talibã em 2001 no Afeganistão. Suportado pelas barragens de mísseis (ou uma zona de exclusão aérea), os combatentes poderiam marchar sobre Teerã, pela lógica de Washington e Tel Aviv.
A ideia não é ruim. No entanto, há um cálculo geopolítico que implica risco: os curdos, que desejam a criação de um Estado em parte dos territórios de Iraque, Síria, Irã e Turquia, são inimigos de morte deste último. A Turquia, por sua vez, é um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ou seja, aliado dos EUA.
No front israelense-libanês, está cada vez mais claro que Israel deve aproveitar a situação para reduzir ao máximo a capacidade militar do Hezbollah. Diferentemente do Hamas, outro braço terrorista do Irã nas cercanias de Israel, a organização extremista libanesa é um Estado dentro do Estado. Mesmo após a morte de seu líder Hassan Nasrallah,a organização, considerada um partido político legalizado no Líbano, seguiu forte - com menos poder bélico, mas muita influência política.
Afastando um pouco a lente, o envolvimento de dois países - Catar e Turquia -, que têm sido fundamentais como mediadores em crises na região, afasta o mundo de uma solução, mesmo que cessar-fogo, de curto prazo.




