
As imagens impressionantes do conflito no Oriente Médio têm levantado o temor de um ataque nuclear durante a guerra atual. Mas qual, afinal, é esse risco?
A resposta simples é: praticamente improvável.
Essa é a resposta racional, obviamente, dentro dos limites táticos, técnicos e morais dos cenários possíveis para o Oriente Médio e sem levar em conta atos impulsivos ou passionais - que, como se sabe, são bem comuns entre líderes políticos.
Por que improvável?
O Irã não tem armamento nuclear. Ainda que esteja buscando, na versão de EUA e Israel, o país não chegou ao grau de enriquecimento de urânio necessário para construir uma ogiva.
Aliás, nesta segunda-feira (9), o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou que pelo menos metade do urânio enriquecido a 60% pelo Irã estaria intacto nos subterrâneos de Isfahan. Para uma ogiva, são necessários 50 quilos de urânio enriquecido acima de 85%. Além disso, uma coisa é ter a bomba atômica, outra é capacidade tecnológica para lançar. Em resumo, o Irã não é um país nuclear.
Agora, olhando pelo lado de EUA e Israel, nações que dispõem de arsenal atômico. Não é interessante, dos pontos de vista tático e estratégico, o uso dessas armas no Irã. Por vários motivos. Primeiro, porque os dois países têm ampla capacidade de destruir a nação dos aiatolás apenas com a utilização de armas convencionais. Ataques de precisão, drones e mísseis já são suficientes, graças à imensa superioridade tecnológica, aérea e naval de EUA e Israel.
Bombas atômicas só foram utilizadas contra populações duas vezes na história, em 1946, pelos EUA contra Hiroshima e Nagasaki. Desde então, mesmo em conflitos onde os EUA estiveram envolvidos, do Vietnã ao Iraque, por exemplo, nunca precisaram voltar a utilizá-las. Armas nucleares são pensadas para guerra existencial entre grandes potências, não para conflitos regionais.
De lá para cá, armas nucleares têm servido como instrumentos dissuasão, não para uso em combate. Primeiro pelo princípio que vigorou desde a Guerra Fria — e que ainda segue: se um país usa uma arma nuclear, abre a porta para retaliação devastadora. É a chamada destruição mútua assegurada (MAD).
Rússia e China, que até agora não estão se envolvendo na guerra do Irã, poderiam retaliar imediatamente, se EUA ou Israel usassem uma bomba atômica. A escalada sairia do controle.
Desde Hiroshima e Nagasaki, criou-se um forte tabu político e moral contra o uso dessas armas. Além disso, haveria um custo político enorme devido às centenas de milhares de mortos, contaminação radioativa que atingiria outras nações - inclusive Israel, deslocamento massivo de população e crise humanitária.
E as armas nucleares táticas?
Primeiro, ao conceito: essas são projetada para uso limitado no campo de batalha contra alvos militares específicos, com menor rendimento explosivo (geralmente abaixo de 10-20 quilotons) do que armas estratégicas. Nunca foram usadas em combates e, embora menores, algumas poderiam ser igualadas ou superar a destruição de Hiroshima e Nagasaki.
Você deve lembrar, a Rússia insinuou que poderia usá-las contra a Ucrânia no início da guerra. No caso do conflito no Irã, não se pode descartar completamente.
Em novembro, os EUA testaram em uma base do Nevada uma dessas armas, a B-61-12, sem ogiva nuclear. A bomba pode ser lançada do ar por aeronaves como o B-2A, F-15E, F-16C/D, F-16 MLU, PA-200, F-35 e B-21. Poderia ser usada para penetração no solo. Como se sabe, muitas estruturas do regime dos aiatolás estão no subterrâneo, em áreas muito profundas, onde mísseis convencionais não alcançam. Uma arma tática nuclear poderia penetrar no solo e explodir um complexo. O efeito na superfície, embora pequeno, poderia ser sentido.
Ainda assim, o uso pela primeira vez de armamento nuclear por um país no pós-Segunda Guerra Mundial teria um efeito simbólico impressionante, com várias nações se unindo para isolar os EUA e Israel.
Hoje, a bomba não nuclear mais poderosa dos EUA é chamada Massive Ordnance Air Blast, conhecida pela sigla MOAB e popularmente chamada de "mãe de todas as bombas".
Pesa mais de nove toneladas, foi desenvolvida para destruir túneis e cavernas, e usada pela primeira vez em combate em 2017 contra o grupo terrorista Estado Islâmico no Afeganistão



