
A maior ação militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã na história decapitou a liderança do regime. Mas a teocracia islâmica, que vem sendo alvo de sucessivos ataques desde 2020, quando Donald Trump em fim de primeiro mandato ordenou a morte do general Qassem Soleimani, da Guarda Revolucionária, acostumou-se a ser como uma hidra, o monstro da mitologia grega com habilidade de regenerar duas cabeças para cada uma cortada.
Ao mesmo tempo, este é o momento mais delicado para o país desde a Revolução Islâmica, em 1979. Há uma combinação explosiva de crises econômica, com a terceira pior inflação do mundo, militar devido ao enfraquecimento de seus braços terroristas (Hamas, Hezbollah e Houtis) e política, logo após os maiores protestos de rua, que desafiaram a ditadura em janeiro. Com o empurrãozinho de Trump e Benjamin Netanyahu, a teocracia balança.
Mas vai cair? Não tão facilmente. Primeiro porque não há uma oposição sólida devido a quase 50 anos de repressão. Segundo porque, justamente essas cinco décadas produziram uma estrutura burocrática, onde ideologia e fanatismo religioso, estão muito mais arraigados do que na Venezuela, por exemplo. As imagens de iranianos comemorando a morte do aiatolá Ali Khamenei geram um otimismo cauteloso em Washington e Tel Aviv, mas quem se aventuraria a derrubar o próprio governo enquanto bombas caem sobre suas cabeças? As ações militares, inclusive, podem gerar um efeito contrário, de criar um espírito de coesão interna.
Em âmbito regional, o mais mortífero final de semana no Oriente Médio desde a guerra de 12 dias, em junho do ano passado, acabou por isolar o Irã ainda mais: afinal de contas, com exceção da Jordânia, todos os países com bases americanas na área foram atacados pelos aiatolás, no esforço de retaliação. Os drones e mísseis caindo sobre hotéis, prédios civis e avenidas de Dubai e Abu Dhabi têm alto impacto sobre o turismo e os negócios. Sem falar do fechamento do estreito de Ormuz, que compromete o tráfego de gás e petróleo das próprias petromonarquias do Golfo. Ah, mas China e Rússia são aliados do Irã, alguém pode dizer. É verdade, mas os dois países não irão muito além de declarações de condenações aos ataques. Ambos têm seus tetos de vidro: Xi Jinping porque pretende, no futuro, provocar mudança de regime em Taiwan; e Vladimir Putin porque iniciou sua própria agressão contra a Ucrânia.
Qualquer análise sobre esse novo ciclo de violência não pode dispensar os aspectos domésticos de EUA e Israel. Ambos países realizam eleições em 2026. Muito provavelmente Trump irá perder a maioria na Câmara e no Senado, o que diluirá seu poder. O presidente americano também vem sendo pressionado internamente pelas revelações do Caso Epstein e criticado pela agenda anti-imigração, cuja face mais visível é o ICE, mas que envolve deportações em massa, batidas e detenções e suspensões de vistos. Ainda que Trump tenha sido eleito com a promessa de acabar com as "guerras eternas" dos americanos (Iraque e Afeganistão), é quase um clichê o hábito de presidentes pressionados internamente começaram uma guerra. Trump começou sete.
Já Netayahu, o mais longevo primeiro-ministro da história de Israel, enfrenta em abril o tribunal da opinião pública, na eleição que irá renovar os 120 membros da Knesset, o parlamento. Um animal político, Bibi, como é chamado, divide o eleitorado: há aqueles que não perdoam as falhas de segurança que facilitaram o 7 de outubro de 2023 e sua demora em trazer os reféns para casa; e existem os que o idolatram como um líder forte, capaz de "proteger" a nação. Mas, a despeito da polarização, um tema une todos os israelenses: a eliminação do Irã, cabeça dos grupos terroristas e cujo regime tem, desde sua criação, o objetivo de riscar Israel do mapa.
O Irã tem um governo fanático, brutal, que oprime mulheres, tortura opositores e mantém a população refém. Mas isso não dá o direito de os EUA e Israel bombardearem o país. A ação coordenada deste final de semana é ilegal no âmbito doméstico e interacional. Trump atropelou o Congresso americano mais uma vez, como já havia feito em relação à Venezuela, ignorando a Constituição, que exige que o presidente busque autorização do parlamento para enviar soldados para o front. No aspecto global, é também uma ação à margem do Direito Internacional e que viola a Carta da ONU.
Aliás, por falar em ONU, a reunião de emergência do Conselho de Segurança foi mais um daqueles teatros aos quais já nos acostumamos. Muita falação, pouca efetividade. Tudo protocolo de um mundo que não existe mais. Saiu de cena a lei. Vivemos a regra do manda quem pode, obedece quem tem juízo. E Trump é dono desse novo mundo.


