
Rei morto, rei posto. Ou melhor, rainha posta. Mais precisamente: rainha com poderes limitados entronada Palácio no Miraflores.
Há um mês, o ditador Nicolás Maduro foi apeado da Cadeira de Bolívar. Apoiada pelos Estados Unidos, Delcy Rodríguez, a presidente interina sobre a qual pesa desconfianças internas (de traição) e externas (de até quando irá cooperar com a Casa Branca) vem equilibrando-se, por meio de um discurso para público doméstico - leia-se os chavistas-maduristas da velha guarda - e os industriais americanos sedentos pela abertura ao petróleo.
Maduro está preso em Nova York. E, passados 30 dias de sua captura, a Venezuela é uma ditadura tutelada. Ao que parece, Donald Trump não se importa muito com os arroubos de Delcy para agradar a torcida doméstica. Desde que a presidente interina faça o que Washington manda, está tudo bem ela dizer que "basta de ordens de Washington na Venezuela".
Ironicamente, na visão de Trump, trata-se de uma versão americana da máxima de Deng Xiaoping: "Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato". Ou seja, a Casa Branca está pouco se lixando para o fato de Delcy seguir no comando de uma autocracia, desde que atenda aos interesses americanos. Nunca foi sobre democracia. Sempre foi sobre interesses. Aliás, essa história conhecemos bem na América Latina dos anos 1960 e 1970 (e, no caso de algumas aberturas tardia, como no Brasil, 1980).
Mas, então, não mudou nada na Venezuela pós-Maduro?
Mudou. Pouco, é verdade. Mas mudou. Na segunda-feira (2), Delcy recebeu a nova chefe da missão diplomática dos EUA, Laura Dogu, que enfatizou que a "transição" faz parte da agenda.
Está claro que os EUA evitaram fazer na Venezuela o que empreenderam no Iraque - e isso, não se pode negar, é bem inteligente. O parlamento da Venezuela (vejam só, presidido pelo irmão de Delcy, o deputado Jorge Rodríguez Gómez), aprovou uma lei do petróleo determinada pelos EUA, que revoga efetivamente a nacionalização de 1976 e, principalmente, o modelo estatista imposto por Hugo Chávez 30 anos depois. Empresas privadas poderão operar de forma independente, em vez de como acionistas minoritários em parcerias com a estatal PDVSA. A nova lei também flexibiliza as taxas de royalties e simplifica o pagamento de impostos. Além disso, elimina a exclusividade da exploração e da exploração primária.
Delcy também declarou anistia geral, que o parlamento precisa aprovar nesta semana. De acordo com a organização Foro Penal, 344 presos por motivos políticos foram soltos. O chavismo fala em mais de 600 libertados, mas sem revelar os nomes dos beneficiados pela medida.
Trump promete reabrir o espaço aéreo da Venezuela para voos comerciais e revogou ordem que proibia companhias aéreas americanas de voar para o país.
A Venezuela que emerge não é uma democracia liberal, tampouco a mesma autocracia de ontem. É um híbrido: retórica revolucionária para a plateia doméstica, pragmatismo neoliberal nos corredores da economia e pragmatismo geopolítico na arena internacional.
O partido do governo organiza marchas quase diariamente para condenar o "sequestro" de Maduro e a televisão estatal transmite uma cantiga que exige sua libertação. Tudo no pior estilo das novelas latino-americanas ou, sendo um pouco otimista, no melhor realismo fantástico de Gabriel García Márquez.
Em bom português, eu diria que a Venezuela é hoje o famoso “me engana que eu gosto” — um teatro de poderes que mistura herança chavista, pragmatismo americano e uma população suspensa entre o passado e o futuro ainda incerto.




