
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
O presidente do Chile, Gabriel Boric, anunciou oficialmente a indicação da ex-presidente Michelle Bachelet ao cargo de Secretária-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que substituirá António Guterres. A candidatura conta com o apoio direto do Brasil e do México e pode se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo em 80 anos da instituição.
"A ex-presidente Michelle Bachelet personifica fielmente os valores das Nações Unidas. Esta candidatura expressa uma esperança compartilhada: a de que a América Latina e o Caribe façam ouvir sua voz na construção de soluções coletivas para os enormes desafios do nosso tempo", afirmou Boric em sua conta no X.
O presidente Lula também endossou a indicação ao compartilhar a publicação, destacando a importância histórica de ter, pela primeira vez, uma mulher no comando da ONU.
"Sua experiência, liderança e compromisso com o multilateralismo a credenciam para liderar a organização em um contexto internacional marcado por conflitos, desigualdades e retrocessos democráticos", declarou o presidente brasileiro.
Trajetória Política e Pioneirismo
Michelle Bachelet ocupou a presidência do Chile em duas ocasiões. No primeiro mandato (2006–2010), fez história como a primeira mulher eleita para o cargo no país. Sua gestão foi marcada por reformas sociais e políticas de proteção à infância, encerrando o governo com aprovação recorde, superior a 80%.
Entre as duas passagens pelo Palácio de La Moneda, Bachelet consolidou sua estatura internacional: entre 2010 e 2013, foi a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres, agência dedicada à igualdade de gênero.
Em 2014, retornou à presidência chilena para um segundo mandato, focando em reformas estruturais nas áreas de educação, tributação e direitos reprodutivos — incluindo a histórica descriminalização do aborto em três instâncias.
Mais tarde, entre 2018 e 2022, assumiu o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), onde mediou crises complexas em países como Venezuela, China e Afeganistão.
Vida pessoal
Antes da ascensão política, Bachelet já havia se tornadoa primeira mulher a ocupar o Ministério da Defesa na América Latina. Sua trajetória pessoal, no entanto, é indissociável da história de resistência do Chile.
Filha do general Alberto Bachelet — morto sob custódia após ser torturado por se opor ao golpe de 1973 —, ela própria foi detida e torturada pela polícia política de Augusto Pinochet no centro de detenção Villa Grimaldi.
Durante o exílio na Austrália e na Alemanha Oriental, formou-se em Medicina, com especialização em Pediatria, retornando ao Chile nos anos 80 para atuar na linha de frente pela redemocratização.




