
No século 19, a metralhadora mudou o caráter da guerra. No século 21, os drones estão fazendo o mesmo.
Os VANTs (veículos aéreos não tripulados), nome oficial dos drones, já eram utilizados com frequência pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, mas foi a guerra na Ucrânia que transformou o combate contemporâneo, com o uso do equipamento não apenas para disparar munição, mas também para, ele próprio, carregar explosivos — o que, ao ser arremessado contra um alvo, transforma o aparelho em um drone “kamikaze”.
Assim, um equipamento de baixo custo passa a ter alto poder destrutivo. Ou, nas palavras de militares, alguns milhares de reais podem destruir, quando lançados contra um blindado, por exemplo, milhões de reais.
Os exemplos mais recentes são o uso de drones kamikaze produzidos pelo Irã, os Shahed, utilizados contra Israel na guerra de 12 dias do ano passado, mas também vendidos à Rússia, que os lança contra a Ucrânia. Os Estados Unidos também vêm desenvolvendo esquadrões de drones "suicidas".
As Forças Armadas brasileiras estão atentas a esses movimentos. Em setembro do ano passado, durante a Operação Atlas, foram realizados testes com um protótipo desenvolvido pelo novo Batalhão de Combate Aéreo da Marinha, localizado na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Com 1,64 metro de envergadura e 65 centímetros de fuselagem, o drone vem sendo chamado de primeira aeronave tática remotamente pilotada. Seu alcance é de cinco quilômetros, com autonomia de 25 minutos, e é capaz de transportar cargas explosivas ou munição. A Marinha já utilizava drones para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento desde 2006, mas esse modelo, de fabricação própria, é o primeiro com capacidade de ataque. A Força também pretende inaugurar uma Escola de Drones ainda neste ano.
A Força Aérea Brasileira (FAB) assinou com a Stella Tecnologia um protocolo de intenções para cooperação técnica no desenvolvimento de Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados (SARP). Muda o nome, mas não muda o tipo de equipamento. São drones com funções de inteligência, vigilância e reconhecimento, que auxiliam em operações de busca e salvamento em casos de enchentes, por exemplo, como as que ocorreram no Rio Grande do Sul, mas também podem ser empregados no lançamento de cargas explosivas e em ataques suicidas. A prioridade, em todas as Forças, é desenvolver expertise nacional, sem que o país fique submetido a interesses de outras potências.
O Exército também vem implementando mudanças operacionais, de olho no combate com drones. Um batalhão será criado e integrado ao Comando de Aviação, em Taubaté, e uma companhia ficará lotada na 12ª Brigada de Infantaria Leve (aeromóvel), em Caçapava, ambas no interior de São Paulo. Para essas novas unidades, o Exército pretende dispor de modelos MALE UCAV, como os TB2 turcos, de longo alcance e grande autonomia, além de equipamentos mais simples, como os drones kamikaze. Desde 2023, consultas vêm sendo feitas a fornecedores externos, mas a preferência é pelo desenvolvimento de modelos próprios.



