
E lá se vai o sétimo presidente da história do Peru a ser retirado do poder pelo Congresso em menos de 10 anos. O único que conseguiu encerrar o mandato nesse período foi Ollanta Humala, em 2016, mas, mesmo assim, não escapou das suspeitas de corrupção. O chefe do Executivo, no país vizinho, se tornou refém do Congresso.
Não muito diferente do Brasil, mas lá é mais fácil destituir o presidente: o caso de José Jerí é exemplar. Bastou uma moção de censura, aprovada por 75 votos a favor, 24 contrários e três abstenções. Maioria simples. No caso do impeachment, no Brasil, são necessários dois terços dos votos, o mesmo vale para o Peru - esse mecanismo não foi adotado desta vez.
A facilidade com que se troca de presidente no Peru não torna Jerí, muito menos os demais apeados da casa de Pizarro, inocente.
É acusado de tráfico de influência, entre outras suspeitas. O problema não é a fiscalização do Poder, função do Legislativo, dentro da lógica do sistema de pesos e contrapesos. Mas quando ela se transforma em mecanismo permanente de alcançar seus interesses.
Meu ponto é a instabilidade profunda da política peruana, concretizada na constante rotatividade na presidência. A anterior, Dina Boluarte, a quem Jerí sucedera como presidente da Câmara, havia caído apenas quatro meses atrás em meio a indignação com o aumento da criminalidade.
Ela própria havia chegado ao Executivo depois que seu antecessor, Pedro Castillo, de quem era vice, tentou dissolver o Congresso, em uma espécie de autogolpe. A instabilidade é tamanha que nem o atual presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi, o primeiro na linha de sucessão, quis assumir.
Há um parlamento forte demais. E um Executivo frágil.
O Peru é um país abalado por reflexos tardios da Lava-Jato, que atingiu no passado recente quatro ex-presidentes e dilacerou a classe política, mais até do que no Brasil, desmontando o sistema partidário tradicional. Há uma crise constante entre os poderes Executivo e Legislativo, com influência contínua do fujimorismo, mesmo tendo sido derrotado pela história e pelas urnas.
O Peru vive uma espécie de parlamentarismo informal, em que o líder do Executivo é trocado de acordo com os humores políticos, mas sem gozar das virtudes desse sistema de governo - estabilidade, coalizões programáticas claras e previsibilidade. O que resta é uma democracia (até quando?) permanentemente instável.




