
Confesso que ainda não terminei o livro, mas meu espírito de repórter me impede de esperar para contar a vocês, leitores dessa coluna, o que achei da obra "O Showman", de Simon Shuster, lançado no Brasil pela Editora Record.
Em 419 páginas, o jornalista da Time revela os bastidores dos primeiros anos da guerra na Ucrânia a partir de um ponto de vista privilegiado: o acesso exclusivo a Volodymyr Zelensky.
Shuster trabalhou como correspondente na Rússia e na Ucrânia por 17 anos. Sua cobertura do conflito na Ucrânia começou em 2014, quando foi o primeiro repórter estrangeiro a chegar à Crimeia no momento em que as tropas russas tomavam a península - lá, pode-se dizer sem medo de errar, começou, verdadeiramente a guerra na Ucrânia. O resto, inclusive a invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, é uma continuidade do que teve início lá atrás.
Em 2019, Shuster conheceu Zelensky, quando pretendia escrever um perfil durante a campanha para a presidência. Então, continuou a acompanhar o governo eleito, inclusive viajando ao lado do presidente ao front em abril de 2021, enquanto Vladimir Putin acumulava uma imensa capacidade militar nas bordas da fronteira ucraniana.

O showman do título remete ao próprio Zelensky que, como se sabe, antes de chegar ao palácio presidencial, teve uma carreira de 20 anos como ator, incorporando inclusive um personagem, em uma série de TV, no qual é um professor de História que se torna presidente da República.
Na pele do chefe de Estado em tempos de guerra, Zelensky usou, segundo a interpretação do autor, um pouco de sua versatilidade dos palcos e estúdios para captar a atenção do mundo e conquistar a simpatia dos ocidentais para a causa de seu país invadido.
Isso não torna o livro uma ode a Zelensky. Ao contrário, Shuster desenha o perfil do homem que toma decisões equivocadas nos dias que antecederam, entre elas o fato de ter minimizado as ameaças russas. Uma das cenas memoráveis é narrada logo no primeiro capítulo: a intimidade do casal Zelensky em sua casa, no lote número 29 do confomínio fechado Koncha-Zaspa, na madrugada em que as bombas começam a cair sobre Kiev e todas as grandes cidades ucranianas. O pastor-alemão ficou nervoso e começou a andar de um lado para o outro. O mesmo ocorreu com o papagaio da família, chamado Kesha.
No quarto do casal, a mulher, Olena, passou a mão no lado da cama onde seu marido dormia. Estava vazio. O presidente, no cômodo ao lado, preparava-se para ir para o trabalho. Seu olhar desnorteado encontrou Zelensky, que falou apenas uma palavra: "Nachalos!". Começou!, em russo, idioma que costumavam falar em casa.
Na sequência, a comitiva presidencial circulou por ruas e avenidas de uma Kiev, sitiada como em tantas vezes ao longo dos séculos, que jamais voltaria a ser a mesma.
Um dos méritos do livro de Shuster é a honestidade. Escrevi o primeiro livro publicado no Brasil sobre essa guerra que, no próximo dia 24 de fevereiro, completa quatro anos. "Trem para Ucrânia" (BesouroBox), lançado nos primeiros seis meses da crise, não tinha a pretensão de contar toda a história do conflito.
Ao contrário, a ideia era relatar a cobertura feita por ZH, o drama humano que encontrei pelo caminho, combinados com o contexto histórico da beligerância entre os dois países. Admitir que aquela era apenas parte de uma história ainda sendo escrita deu-me tranquilidade para interpretar fatos sob a luz do momento - com todos os riscos envolvidos nesse gesto. Há paralelos: Shuster também decidiu colocar o ponto final em seu livro antes que os canhões se calem. Se é que, um dia, se calarão.
Mais do que nos colocar em contato com as entranhas da guerra, algo que busquei em meu livro, o relato de Shuster nos leva a um exclusivo convívio com um teimoso, confiante, vingativo, por vezes imprudente, mas sobretudo resistente Zelensky.




