
Você, que acompanha esta coluna, já sabe que eu entendo o cenário geopolítico atual como muito semelhante ao período vivenciado no final dos anos 1920 e início da década de 1930: polarização política, ascensão de extremismos, guerras regionais, a conformação de zonas de influência pelas principais potências, e, talvez mais perigoso que tudo isso, guerras regionais com potencial de, em razão da lógica de alianças, se tornarem um conflito global. Sim, falo de uma Terceira Guerra Mundial.
Pois demos mais um passo em direção a essa realidade mais perigosa. Com a expiração do New Start, pela primeira vez em meio século, o mundo não tem um tratado vinculante que restrinja armas nucleares. O acordo, que venceu nesta quinta-feira (5), impunha limites rigorosos de 1.550 ogivas estratégicas implantadas e 800 lançadores e bombardeiros pesados para Estados Unidos e, o mesmo, para a Rússia. Mais importante: diferente dos demais acordos, pré e pós-Guerra Fria, o New Start contava com mecanismos de verificação mútua. Ah, mas desde 2023 o tratado já estava capenga, desde que as inspeções foram suspensas devido à invasão russa da Ucrânia. É verdade. Mas era o típico caso de "ruim com ele, pior sem ele". Bom, mas nenhum tratado hoje tem valor sem a inclusão da China, potência em ascensão no sistema internacional. Também é verdade, mas quem detêm 80% das ogivas nucleares do planeta não são os chineses, mas Estados Unidos e Rússia.
Essa história de tentar limitar os interesses políticos não nasceram por conta de gestos de confiança. Mas como instrumentos de sobrevivência. Eles surgiram quando EUA e a então URSS entenderam que ganhar a corrida nuclear significaria perder o mundo - a famosa "destruição mútua assegurada", em outras palavras, se alguém disparar uma bomba atômica contra o outro, o segundo ataque será tão devastador que acabará com a humanidade.
A lógica, então, passou a ser não eliminar o conflito, mas torná-lo administrável: estabilizar a dissuasão, evitando vantagens decisivas, criando uma transparência mínima, na qual um saiba o que o outro tem, e reduzindo o risco de erro de cálculo, não o bate-boca político, muitas vezes instrumento de governantes para agradar o público doméstico ou a base eleitoral.
O mais conhecido desses acordos foi o Tratado de Não Proliferação Nuclear, que virgou de 1968 ao início dos anos 1970 com o objetivo de impedir que mais países tivessem armas atômicas - leia-se apenas os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Não reduzia arsenais, mas congelava o clube, que, aliás, hoje é mais amplo, e, por consequência, não representa mais o equilíbrio de poder atual.
Além de Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, sabe-se que Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel dispõem de armas nucleares. Ainda assim, o NTP é a base do regime nuclear até hoje - todos os demais acordos, o Salt I (limita o número de lançadores estratégicos), Salt II (tentava limitra ogivas múltipas), INF (o mais ousado, buscaba eliminar toda uma classe de armas nucleares), Start I e II eram herdeiros dessa filosofia. Mesmo no auge da rivalidade, havia linhas diretas entre Washington e Moscou, um telefone vermelho, inspetores adversários visitavam as bases, dados eram trocados regularmente e testes eram notificados.
O paradoxo parecia ser: quanto mais armas, mais regras. Na Guerra Fria, havia dois atores centrais, um equilíbrio relativamente previsível e tratados fortes e contínuos. Hoje, há múltiplos atores, menos tratados, menor transparência e mais tecnologia destruidora. Assinado em 2010, por Barack Obama e Dmitri Medvedev, o New Start foi uma tentativa de dar um "reset" nas relações entre EUA-Rússia.
O tratado funcionou: ambos os lados cumpriram os limites, houve centenas de inspeções e, mesmo em momentos de tensão entre os dois lados, como a guerra na Síria ou a invasão da Crimeia, o canal técnico permaneceu aberto. Essa âncora de estabilidade estratégica foi, agora, levantada. Mas o navio está à deriva.






