
No livro "Humanos - Raio X da Vida Real", Celso Athayde e o filho, Marcus Vinicius Athayde, desafia o olhar sobre a criminalidade no Brasil.
Com dados inéditos do Data Favela, a obra faz um mergulho na realidade de pessoas cujas trajetórias são atravessadas pelo tráfico. O lançamento será nesta terça-feira (13), às 18h, na Avenida Wenceslau Fontoura, 558 — Bairro Sumaré, em Alvorada.
Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (Cufa), conversou com a coluna.
Por que lançar o livro agora? Tem a ver com as mortes ocorridas na Penha, em outubro?
Já tivemos a oportunidade de escrever alguns livros sobre esse universo: "Falcão, Meninos do Tráfico", "Falcão, Mulheres e o Tráfico". Todos foram best-sellers. O que faltava era uma pesquisa com dados estatísticos dessa realidade. A gente queria entender sobre as pessoas envolvidas com tráfico de drogas. Já queria ter feito há muitos anos, mas tínhamos muita dificuldade porque precisávamos estar qualificados para fazer isso. A gente tem fotos de todos os entrevistados. E a gente não poderia fazer isso com pessoas que fossem do asfalto, então a gente tinha de qualificar as pessoas das favelas para que fizessem isso. Quando você pega, no Rio Grande do Sul, a Bonja (Bem Jesus), o Morro da Cruz, ou, no Rio, a Rocinha, o Jacarezinho, quem fez a pesquisa lá foram os próprios moradores, que nós qualificamos. Isso é um baita diferencial.
Faz toda a diferença.
Para um pesquisador (de fora da favela), os moradores vão falar o que quiserem. Para nós, não. Se você é um morador de uma favela que tem um parente, um vizinho que trabalha no tráfico, tu sabes quanto que ele ganha. Então, não adianta o teu entrevistado mentir. Todo mundo ali conhece o contexto. A gente chegava de forma profissional e qualificava as pessoas para poder aprender a fazer questionário, elaborá-lo e, depois, fazer a leitura. É a favela não mais como o camundongo de um laboratório, mas como cientista. Isso abre uma nova forma de pensar. A favela não precisa ser apenas aquela que entra para o filme com as suas histórias. Ela precisa produzir seus filmes, precisa dirigir seus filmes. Contar sua história, mas também ter domínio sobre a editora. Estou contando essa história, a partir do meu ponto de vista, mas também como um cientista, como um editor, e tenho participação nisso. Fizemos isso agora não por conta dos últimos acontecimentos. Inclusive, o lançamento seria no dia 4 de novembro. E, a partir do acontecimento (na Penha), a gente resolveu não juntar as duas coisas para não parecer oportunismo. A Cufa da favela do Complexo da Penha é uma das mais imponentes. Naquele momento, tinha muitas pessoas de luto, a gente estava atendendo muitas famílias.
Desde o lançamento de "Falcão, Meninos do Tráfico até agora, o que mudou no tráfico?
Só piorou. Quando a gente começa a elaborar a pesquisa, há uns quatro anos, eu entendia que seria uma forma de fechamento de ciclo inciado com o "Falcão, Meninos do Tráfico". A gente fez um documentário, rodou o país inteiro, mas não havíamos feito uma pesquisa para entender os números. Se a gente tivesse feito naquela época o livro, o documentário e a pesquisa, a nossa contribuição teria sido maior, porque teríamos colocado na mão das autoridades informações. A gente precisa mudar a matriz econômica da favela. Esse livro traz um pouco dessas nossas reflexões. Cada um vai ler a pesquisa e fazer a sua avaliação. O cara que é de direita vai achar que é mais uma razão para matar todo mundo. Quem é de esquerda pode pensar diferente. Quando a gente escreve, trazemos um pouco das nossas experiências, não só no Rio de Janeiro, mas em todos os Estados que a gente vai. Por exemplo: muitas pessoas, quando estão na favela e ganham R$ 1,2 mil... O cara podia ser Uber, ia ganhar mais do que isso. Mas está ali correndo risco. Muitas dessas pessoas são foragidas ou devem à Justiça. Não podem nem arrumar um emprego, porque, se forem trabalhar, vão ser presas. Essas pessoas muitas vezes foram presas porque estavam traficando. Mas por que continuar encarcerando uma pessoa que estava vendendo maconha quando ela é, praticamente, considerada legal? O debate já avançou. Se você não cometeu estupro, homicídio, não sequestrou, e o único crime foi ter vendido uma maconha para alguém que foi na tua porta comprar, e você tem essa pessoa devendo ainda 10 anos de cadeia, pode ser que a melhor forma de resolver seja um perdão. Deixar essa pessoa trabalhar. Entre a prisão e a sua liberdade, ela prefere ficar em uma boca de fumo, ganhando R$ 1.000 do que em um cárcere.
Vocês abordam também a questão da religião.
Essa orientação religiosa começa com o Complexo da Parma, no Morro da Formiga, em que os caras começam a orar orar, orar, orar. E você passa a ter uma variação do Comando Vermelho, em que os caras eram evangélicos. Por mais absurdo que aquilo seja, você começa a ver o preconceito. O bandido pode ser o da Umbanda ou do Candomblé. Esse tipo de religião a gente entende que seja compatível com eles. Todas as nossas religiões não são consideradas religiões porque a gente entende que eles produzem o mal ou que propagam o mal ou coisa parecida. Quando vou a algumas favelas e está ocorrendo um culto, paro para ver. Não existe a menor diferença entre o culto das igrejas, do trem, das praças públicas. Eles guardam as armas em um canto, botam do lado de fora dos templos, etc. E só se entra desarmado. Ali, fazem o culto a Deus. Alguém pode dizer: "É um absurdo o cara ser evangélico e ser traficante". Peraí, qual é o tipo de crime que Deus não permite? Porque, quando você vai nas bancadas evangélicas, tem um monte de bandido também, que desvia dinheiro, que foi preso por apologia ao crime. Ou seja, qual é o tipo de crime que Deus não permite? O problema é que a sociedade vai avançando para o crime de tal forma que parece que é o crime que está avançando para a sociedade.
E trazer isso e os valores que ganham (com o tráfico) é uma forma de dizer que é possível mudar a matriz econômica da favela a partir do empreendedorismo.
Quando vocês perguntam o principal motivo da entrada no crime, quase metade responde que é por falta de dinheiro. Isso vai contra o senso comum de que é pela vaidade ou por algum sentido de maldade.
Se fosse por orgulho, o cara botava os filhos dele para fazer parte daquilo. A maioria não quer. Se você pegar uma marca de perfume ou de cerveja e falar na favela: "Você não vai mais vender droga, você vai vender cerveja e vai vender perfume. Eu te dou aqui a minha franquia". Se o cara ganhar dinheiro, é o que vai fazer. É por uma questão econômica, por acesso a bem. Quem nasce na miséria, não se suicida por conta de falta de dinheiro. Quem faz isso é rico. O pobre nasce com os pais na penúria. Ele vive vendo o pai passar da carroça para o trem, o ônibus, para deixar o dinheiro em casa para a mãe comprar pão. Ele vive com a ausência dos pais, que trabalham, porque precisam produzir para sua alimentação. Muitas dessas pessoas não suportam mais reproduzir por anos esse tipo de coisa. Vai tentar alguma alternativa. Muitos fazem faculdade, mas vão ficar no crime até terminá-la. O fato é que é uma questão econômica pura e simplesmente. E trazer isso e os valores que ganham (com o tráfico) é uma forma de dizer que é possível mudar a matriz econômica da favela a partir do empreendedorismo. Basta dar chance para essas pessoas.
E aí no momento que você diz que 60% ganha menos que dois salários mínimos desmistifica a ideia de que o crime gera riqueza para quem tá na base da a cadeia?
Uma favela só leva riqueza para quem é o dono dela. O crime acaba reproduzindo a lógica da sociedade. A maioria das pessoas vai ganhar salário mínimo no país. Uma pequena elite vai ter grandes salários ou vai ser patrão. No crime não é diferente: você vai ter todas atividades, como formiguinha, soldado, vigia, fogueteiro, olheiro. Só sobrevivem, tanto que, quando morre a mãe, essas pessoas têm de fazer vaquinha para enterrar.
Como foi fazer o livro com teu filho?
Esse meu filho sempre ficou muito perto do que a gente estava fazendo. Fui percebendo o quanto ele tinha vocação. Hoje, ele não só fez o livro, como toca a Cufa global. Mora entre África do Sul, Brasil e França. A Cufa global hoje está em 73 países. Ele também ajudou a coordenar a pesquisa e é o co-CEO do Data Favela. Estudou no Ibmec, e se formou em Economia. É muito qualificado. Pessoalmente, é um prazer muito grande. É a percepção de de um jovem, mesmo tendo uma vida bastante diferente da minha, que morei na rua durante seis anos, morei em abrigo público durante dois anos e morei em favela a minha vida inteira. Ele traz uma visão complementar.





