
Ninguém sabe que está em uma guerra mundial até estar, de fato, dentro dela. Elas nunca se anunciam com nome próprio. Quando a Alemanha do Terceiro Reich invadiu a Polônia, em 1º de setembro de 1939, ninguém chamou aquilo de Segunda Guerra Mundial. Da mesma forma, em 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Franz Ferdinand e sua esposa, Sophie, foram assassinados em Sarajevo por um nacionalista sérvio-bósnio, poucos imaginaram que aquele atentado seria o ato número 1 da Primeira Guerra Mundial. O que havia, nos dois casos, era algo menos visível: o contexto. O ambiente já estava preparado para o conflito.
Quando esse caldo está pronto, a história passa a funcionar como uma engrenagem tétrica que gira sozinha. Alianças se ativam, afinidades se reconhecem, interesses se alinham. As peças de dominó começam a cair em sequência. Foi assim quando Alemanha, Itália e Japão, em determinado momento, se entreolharam e perceberam objetivos comuns — em 27 de setembro de 1940, nascia o Eixo. Com esse cenário armado, bastaria alguém dizer, em voz alta: “O mundo está em guerra”.
Guerras globais, obviamente, não são feitas de um único confronto, mas da soma de inúmeras guerras menores. É isso que torna o atual cenário geopolítico tão preocupante. A lógica das esferas de influência — grandes potências projetando força sobre zonas que consideram suas — volta a organizar as relações internacionais. E um mundo dividido em esferas é, por definição, mais militarizado e instável.
A Rússia avança para Oeste ao invadir a Ucrânia e empurra a Europa para um processo acelerado de rearmamento. No Oriente Médio, os Estados Unidos ameaçam o Irã, que fornece drones à Rússia e pode retaliar com ataques a Israel e à Arábia Saudita. No Extremo Oriente, a China intensifica a pressão sobre Taiwan, aliada de Washington, enquanto militariza o Mar do Sul da China. A Coreia do Norte, já nuclearizada, testa mísseis no Mar do Japão, outro aliado americano. No Hemisfério Ocidental, os Estados Unidos bombardeiam a Venezuela e ameaçam anexar a Groenlândia, desafiando aliados europeus e decretando, na prática, a morte da Otan.
Por isso, a ameaça contra a Dinamarca (dona do território da Groelândia) não pode ser tratado como mais uma bravata de Donald Trump. Dentro da lógica histórica em que conflitos localizados escalam para confrontos globais, esses movimentos empurram o mundo perigosamente para a beira do abismo. Some-se a isso a ascensão de radicalismos à direita e à esquerda, o descrédito de instituições, como a ONU, as crises econômicas e sociedades cada vez mais polarizadas. O cenário estaria montado. Faltaria apenas alguém decretar, retrospectivamente, que a Terceira Guerra Mundial teria começado.




