
Um discurso longo, cheio de soberba e insultos a governos aliados e ameaças veladas, como poucas vezes se viu na história das relações internacionais. Assim foi a fala do presidente dos EUA, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial, em Davos na Suíça, nesta quarta-feira (21).
Desprezando a liturgia do cargo, como de costume, mas nunca de forma tão explícita quando agora, o presidente desdenhou de líderes europeus, que estavam em peso, com palavras que beiraram o insulto.
— Amo a Europa, mas ela não está indo na direção certa — disse — Alguns lugares na Europa estão irreconhecíveis — completou em outra oportunidade.
Essas frases tinham como referência a aposta dos europeus em fontes renováveis, que, segundo Trump, são responsáveis pela queda na produção de energia, e ao ingresso de imigrantes.
Mas o tema mais esperado era a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca que Trump, desde o primeiro mandato, planeja anexar. Houve ameaças veladas:
— Vocês viram o que fizemos há duas semanas atrás — disse, em referência à ação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro.
Sobre a crise deflagrada por sua própria ganância, Trump usou o argumento de que a Dinamarca não teria condições de garantir a própria segurança do território, segundo ele ameaçados de ações — ou intenções — dos chineses e russos.
— Tenho grande respeito pela população da Groenlândia e da Dinamarca. Mas nenhum país está em posição de garantir a segurança da Groenlândia além dos EUA — afirmou.
Ele lembrou que a Dinamarca caiu em "seis horas" em 1940 para a Alemanha nazista, e que o país não conseguiu garantir a segurança da Groenlândia. Lembrou que os EUA entraram em ação para fazê-lo.
— Depois da guerra, demos a Groenlândia de volta à Dinamarca. Que estupidez a nossa, mas fizemos isso, devolvemos o território. E, agora, como são ingratos — disse.
A princípio, Trump garantiu que pretende negociar a compra do território, como os EUA fizeram com outros territórios.
— Eu não quero usar a força. Estou apenas pedindo a Groenlândia — afirmou.
Não é exagero pensar que os EUA poderiam comprar o território — isso foi feito com o Alasca em relação à Rússia, em 1867, ou mesmo a Louisiana, da França de Napoleão Bonaparte, em 1803. Mas o fato é que a Dinamarca não quer vender a Groenlândia. E, em mais uma ameaça velada, afirmou:
— Se vocês aceitarem, vamos gostar. Se não, vamos nos lembrar.
Não é só por terras raras ou minérios ou pelo derretimento das geleiras que podem abrir novas rotas de navegação entre os oceanos Ártico e Atlântico. No discurso em Davos, completamente alinhado com a National Security Strategy lançada em novembro de 2025, ficou muito claro que Trump enxerga o território dinamarquês como um ativo estratégico fundamental em caso de conflito com Rússia ou China.
Além disso: Trump quer usar o local para construir o Domo de Ouro, uma proposta de um sistema de defesa antimísseis em larga escala, inspirado no "Domo de Ferro" de Israel. Apresentado em maio de 2025, o projeto tem um custo estimado pelo presidente em US$ 175 bilhões— quase R$ 1 trilhão.



